Quando a verdade vem através da sinceridade, se a mentira é tão grande que não se consegue explicar em uma só frase, o rumo da história muda, a zona de conforto cai por terra, e as chances de o futuro ser o mais sombrio possível não são poucas. Felizmente, com Crazy Ex-Girlfriend, ficamos apenas nas suposições do que poderia ter sido se a continuação da história a partir da curva com a qual a primeira temporada terminou não fosse fiel aos momentos e ícones estabelecidos até então ou se os episódios posteriores fossem gradualmente perdendo o teor artístico pelo qual a série é tão aclamada.

Os incômodos salientemente fundamentados no primeiro ano do seriado tiveram desenvolvimentos formidáveis. Paula (Donna Lynne Champlin), por exemplo, viu sua vida pessoa e profissional viradas de cabeça para baixo, além de ter seu papel enquanto amiga de Rebecca revisitado em diversas camadas de interação e sentimento. A personagem protagonizou grandes momentos, musicais e dramáticos, bem construídos e relevantes de uma forma que não se encontra em nenhuma outra esfera da produção. Por outro lado, em mais uma representação do tipo mais realista de mulher, logo, o melhor tipo de mulher, a difícil, Valencia (Gabrielle Ruiz) saiu de seu posto unilateral previamente decorado com a percepção precipitada e injusta que Rebecca tinha dela e ganhou vulnerabilidade, sem perder a sua essência ácida e seus cortes bruscos no meio das trocas comunicativas com quaisquer personagens.

Outros personagens tiveram holofotes dignos porque a lente de visão da narrativa deixou de ser exclusiva da protagonista primordial, o que viabilizou tanto uma abordagem mais complexa dos coadjuvantes como um mergulho mais honesto na situação psicológica da Rebecca; o que não foi fácil, mas não significou a queda da qualidade da série. Mesmo sendo a porção mais pesada e crua e nua da comédia, implementando o lado dramático da produção, a nitidez dos detalhes dos problemas mais evidentes da moça que foi inspirada por um comercial de manteiga preservaram a poesia e a intertextualidade que tornam Crazy Ex-Girlfriend um dos exemplares mais astutos na televisão aberta atualmente.

Greg (Santino Fontana) e seu alcoolismo foram outra plataforma estarrecedora para o trabalho recheado com sensibilidade e agressividade que os roteiristas empregam tanto na edificação das histórias quanto na execução dos tentáculos multi-temáticos da grande paródia cultural e estilística que a série mais madura do canal The CW é. Mesmo quando o assunto é algo delicado e traumático, o compromisso com a elevação do sarcasmo e da inflamação dos comportamentos hipócritas mantém cada novo episódio tão excitante quanto o anterior, mesmo com as constantes mudanças que eles trazem em seus mecanismos de introdução de problemáticas, análise de dilemas e a forma como ridicularizam as nuances aparentemente banais, mas extremamente verossímeis.

É sensato dizer, portanto, que a série teve mais coragem ao ampliar os horizontes não só dos gêneros musicais, já que isso é algo que ela vem fazendo desde o seu primeiro capítulo. Mas a real demonstração de confiança na inventividade reinventada pouco a pouco e a densidade das configurações situacionais, o cuidado com o qual assuntos geralmente evitados por canais abertos são misturados na sopa melódica e cômica de #CEG, sob a manta do exagero como crítica política e comportamental.

A dinâmica do escritório foi ótima (não é só o Daryl [Peter Gardner] que tem suas dúvidas sobre a vida…), pois serviu para validar a presença dos funcionários como seres não apenas engraçados e geradores de risadas mais fáceis e momentâneas (apesar de serem incontestáveis nessa função), mas também como indivíduos com problemas incomuns na televisão, incomuns nas rodas sociais, mas corriqueiros na intimidade de cada pessoa, mesmo que ela, muitas vezes, nem se dê conta de que precisa de ajuda (o que acontece com a Rebecca toda vez de uma vez diferente, sempre a levando para longe do centro do único problema que importa, enquanto ela fica procurando defeitos em si para tentar controlar sua tristeza). A superestimação do ordinário, então, vira poesia, é entrelaçada pela melodia e mergulhada nas piadas mais desconcertantes imagináveis, considerando a plataforma de amplo e livre alcance. Nas entrelinhas, a série nos faz relaxar, nos certifica de que o amor próprio e o respeito são os melhores remédios para a maiores das insatisfações da atualidade.

Como a mágica técnica da série está na amplitude e nas, costumeiras, faltas de sutileza, os espelhos criativos estabelecidos não só como uma muleta na progressão da narrativa, mas também como ramificação das desordens propositalmente integradas à história, embora não tenham sido impactantes o suficiente para mudar o rumo das desventuras de Rebecca (Rachel Bloom) antes do fim da temporada, reincorporaram o frescor desse ciclo reduzido (5 episódios a menos do que no ano de estreia) com, principalmente, a chegada do Nathaniel (Scott Michael Foster), que semeou mais do que uma interação com mais de um dos personagens veteranos e significa mais do que uma coisa em West Covina e em si mesmo… E isso é bom, é simples, mas não deixa de ser admirável.

No último episódio, outro casamento chega para ditar o clima de encerramento. E é interessante ver como saímos de uma chuva de referências e tentativas quase que aleatórias correlacionadas às pressas com um esmero básico para uma linguagem sólida, paciente, consciente e memorável, mas potente emocionalmente e, ainda que fraqueje em alguns momentos anticlimáticos e arrastados demais, sobressai-se como uma das formas de expressão artística mais válidas da televisão, criando hipóteses e discussões cruciais de maneira extrovertida e honesta. A quebra de tabus continuou sendo feita com naturalidade e a força feminina não se limitou a uma militância estritamente barulhenta sem argumentos realmente nocivos injetados através da sagacidade das profissionais envolvidas no projeto.

A renovação já é uma realidade e mais uma decisão extrema foi tomada no calor das aflições. Verdades e mais verdades foram desvendadas e as instabilidades não perderam a força, não caíram na mesmice, ainda bem. Assistir a essa série tem se tornado uma experiência ainda mais surpreendente do que antes.


1163O que mais agradou: A forma como os mais diferentes pontos de vista e reações tiveram espaço para serem ouvidos e considerados no campo de decisões da série. Todos os atritos de todas as interações tiveram mais do que dois lados, mesmo que de forma indireta ou em métodos de representação heterogêneos. Até Josh (Vincent Rodriguez III) foi ouvido, mesmo sem falar coisa com coisa, como nunca.

1171O que menos agradou: Faltou um desenvolvimento mais robusto para a Heather (Vella Lovell); o que é uma pena, já que ela também foge das expectativas e com certeza guarda mais do que parece.

 P.S.: Trent (Paul Welsh) pode saltar de qualquer arbusto a qualquer momento.

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