Dias após completar uma década de existência, nosso menino estava, novamente, sobre o alvo da hostilidade de seus pais. A peripécia, dessa vez, foi a imposição de uma escolha crucial para o futuro da criança amedrontada; a continuidade ou inversão na política de alternância na divisão do tempo gasto pelo menino nas casas de seus progenitores. O juiz considerou 10 anos uma boa idade para colocar o destino do rapazinho em suas mãos, assim, sem mais nem menos, sem que ele soubesse, realmente, o que estava prestes a fazer com sua trajetória. Entre tardes chuvosas e manhãs atordoantes, o resultado final se deu numa segunda-feira, no calor do barulho, na oportunidade do caos.

Olá, sou eu, aqui, de novo
Olá, quem fala, é o fruto, do desgosto
Olá, querido, me bata, no rosto
Olá, meu sangue, minha âncora, meu povo

Sou pequeno, mal sei nadar
Vocês me jogam no fundo do mar
Sou calmo, gentil
Vocês só sabem me maltratar
Sou alegre… de quem me amar
Vocês me usam para se odiar

Cada um de nós tem uma culpa
A sua só cresce
A minha também
Mas eu não a carrego
Nem sei como…
Como ser o homem antes do tempo
Como ser o guerreiro no relento
Como ser o filho do descontentamento
Me recuso!

Naquela sala apertada, de poucas cadeiras e muitos argumentos, nosso menino foi seduzido de todas as formas possíveis, até pelas quais ele ainda não era suscetível. De um lado, uma avó fervorosa por mais uma vitória, que significaria a permanência de seu primeiro neto sob a sua asa, cuidados e amor por mais tempo. Do outro, uma mãe frustrada, se intitulando arrependida e injustiçada, lançadora de pedidos de desculpa e razões melosas, capazes de derreter qualquer coração, principalmente um tão frágil e inseguro quanto o do nosso menino, na época. Naquela atmosfera desconcertante não havia apenas uma criança na mesa das apostas. Vários casos, complexos demais para nosso menino assimilar, se acomodavam, como podiam, nos assentos que se desmanchavam tão lentamente quanto a fila andava. Enquanto a vez dele não chegava, suas duas origens derramavam baldes de saliva, com o intuito de convencê-lo a ficar do lado que, para eles, e só para eles, seria, sem contrapontos, o melhor lugar para o menino.

Me deixem, me soltem
Me abracem, só isso!
Me toquem, sem detalhes
Me amem, neste instante
E compartilhem, sem querer
O mais puro dos sentimentos
Me queiram, sem essa fome
Sem o amargor que te consome
Me iluminem, com perdão
Me mostrem o oposto desta escuridão

“O lado da mãe”. Com o suor ainda descendo pela espinha, o queixo tremendo e os dedos confusos, essa foi a resposta para a pergunta que permaneceu no topo das prioridades durante todo o dia. Nosso menino escolheu o lado que surpreendeu até mesmo quem estava nele, pois todos os indícios apontavam para uma escolha influenciada pelos benefícios da mesma, já que as crianças são, geralmente, mais facilmente induzidas pela beleza e fluidez com que as coisas são apresentadas à elas. Considerando essa fraqueza da juventude, o lado paterno tinha muito mais vantagens, já que foi, desde o início, o mais dotado de elementos e mordomias. Contudo, a emoção venceu o materialismo, e mesmo que a disposição dos parentes do lado do pai para dar afeto tenha sido incontestável, o choro e cena elaborados pela mãe como último esforço para conviver mais com seu filho valeram a pena.

O coração derruba a exibição
A foto que se releva choca
O silêncio que segue… transforma
Amanhã, independentemente de quem o espera, será inesperado
Os próximos picos são realmente assustadores
Um curva estranha é também reflexiva
Traz a verdade unidimensional para quem vai
E dá descanso para quem fica

A ilusão se consolidará
Ou cairá
De qualquer forma
Nada será inútil
Nenhum sacrifício…
Nenhuma lágrima…
Nenhuma batalha…

Os primeiros dias da nova rotina podem ser definidos, ironicamente, como uma versão mais amena do que o que o nosso menino estava familiarizado, um vez que, mesmo passando mais tempo com a mãe, a forma como ele era tratado se aproximou, alarmantemente, da recepção obtida junto a família do eixo paterno. Seguindo essa impressão, nosso menino adentrou os novos caminhos com mais fé em sua escolha; e embora ele questionasse, às vezes, os critérios da mudança brusca, o sentimento predominante, com certeza, era de satisfação. Por uma lente otimista, essa agradabilidade momentânea serviu para uma coisa positiva: Mostrar ao menino como a vida com sua mãe poderia ser, se ele tivesse tudo que merecesse.

O desenho dos teus lábios
No vidro frio de um novo amanhecer
A queda desejada por muitos
A plenitude de se conhecer
O desenho da tua conduta
No muro que tua raiz desafia
A estrutura de uma certa doçura
O controle que tu sempre quis

Eita, menino, olha o balanço!
Olha a fogueira, olha o teu pé!
Olha quem sente a tua falta!
Olha quem só diz que te quer!
Eita, meu menino, meu…
De coração moldado por capricho, meu…
Eita, menino de quem te ilude
Será que ainda te resta, intacta, alguma virtude?

Infelizmente as boas águas não duraram muito e, pouco a pouco, nosso menino percebeu que a comoção e promessas de melhora da mãe eram apenas artifícios vazios, de uma pessoa que jamais seria capaz de dar-lhe o mínimo de amor necessário para fazê-lo feliz. A decepção e arrependimento não vieram tão repentinamente quanto a emoção de sua mãe. De elevações no tom de voz a explorações no trabalho doméstico, nosso menino voltou a sofrer tudo que já conhecia antes da grande decisão. Apesar de indignante, o retorno dos métodos inescrupulosos de criação da mãe do nosso menino não foi surpreendente, pois esse lado sombrio quase o fez descartar o voto de confiança em suas declarações, e continuar onde o conforto era inalterável. Todavia, nem tudo foi ruim; já que nosso menino aprendeu a relativizar as coisas, ele conseguiu ver um aprendizado importante, e imutável, na experiência angustiante que foi ser humilhado, com mais frequência, por aquela que o colocou neste mundo.

Se for me tocar
Que seja com carinho
Que não me deixe sozinho
Quando a noite chegar

Se for me ter
Que seja como eu sonho
Que tenha estrelas entre os escombros
Que me faça renascer, crescer

Se for me atrair
Que me leve sem me derrubar
Que não seja para me trair
Que não me faça me desrespeitar

Sem nunca cogitar a aceitação das configurações, nosso menino jamais baixou a cabeça diante da opressão, e só continuou calado porque tinha vergonha de recorrer à quem ele deu as costas, exatamente quando o momento mais decisivo chegou. Enquanto ainda muito abalado, ele tinha que cuidar de suas coisas, preservar a integridade de seus materiais escolares e defender as oportunidades de manter suas notas altas, como elas foram graças ao incentivo das tias, irmãs de seu pai. No entanto, todos os elementos daquela realidade pareciam culminar, diariamente, na pior das suposições, e era bem aí, no final de cada baque, que nosso menino guardava, nas entranhas do peito, a vontade de se livrar da forca cuja corda ele mesmo havia providenciado. Vítima da astúcia doentia de sua mãe, ele permaneceu isolado, sem interagir muito com os irmãos, pelo menos não genuinamente, porque não tinha ânimo suficiente para expressar-se, uma vez que, em alguns momentos, até babá ele chegou a ser, e ao invés de rir, abafou o choro.

O escárnio que me cerca
Me violenta em qualquer contexto
Me tira do sério, do equilíbrio
Me mostra algo difícil de engolir

Luas se vão
Levam consigo minha tranquilidade
Minha juventude desperdiçada
Entre fronteiras de desprezo e saudade

Montanhas se movem
Filhos se desenvolvem
Eu ainda me encontro embaraçado
Perdido em meio a tanto desconsolo…

Nada aqui me pertence
Nem que eu queira
Nem que eu não fosse meu

Nosso menino, mesmo sendo objeto de várias manipulações, nunca negou seus desejos, e em uma tarde aleatória, quando o sol dava o último sorriso e a lua começava a brilhar, anunciando um novo sequestro de esperança, pegou tudo que até hoje lhe é precioso e foi embora. Assim, livre de explicações ou despedidas. Dando a consideração que lhe foi dada, ele apenas esperou por um momento em que apenas o marido de sua mãe estivesse em casa, com seus dois irmãos mais novos, pois sem essas denominações, ele não seria capaz de se erguer, muito menos de se arrastar até a porta. Com o peso da culpa e do sentimento de perda, nosso menino não absorveu o acontecimento com frieza, pois sabia que aquilo era não só um ato de libertação, mas o encerramento de uma complicação que deixaria sequelas pelo resto de sua vida, tanto em sua interpretação do que é ter uma família, quanto em seu comportamento dentro de uma.

Bato a porta
Bato em meu passado
Agora é a hora…
De me ter em meus braços
De me recolher do chão
De me dar uma última chance
Uma única chance

Bato e me digo:
Que ainda gosto de você
Que acredito em você
Que nada mudou, bem lá, aonde só a gente vai

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