Jane The Virgin é uma série com atributos deveras atípicos para a atmosfera das produções americanas, tanto no ritmo e efervescência dos acontecimentos, quanto na execução das ideias exportadas de um gênero muito popular ao redor do mundo, a telenovela. Com um elenco diverso etnicamente e situada nos Estados Unidos, a comédia romântica se aproveita e distorce diversos clichês conservados ao longo dos anos nas produções melosas mexicanas. O ápice do deboche é o narrador, que jamais deixa de ser relevante; muito pelo contrário, ele só se torna ainda mais amigo do espectador com o passar dos episódios, quebrando abrindo várias frestas de observação da história. Apesar de ser uma grande sátira, uma paródia muito bem pensada sob uma configuração de temporadas de 22 episódios, a série se sustenta com dignidade e respeito até nas mais óbvias das repetições de ideias e contornos de tramas aparentemente resolvidas; até na adição de novas grandes informações, o desfalque na hora de preencher as lacunas imperdoáveis é raríssimo.

Como o pilar heterogêneo de uma série cheia de recortes e facetas inventivas, protagonista é uma grande mistura de tradição e contemporaneidade. A premissa é uma promessa feita a sua avó, que consiste no voto de castidade até o matrimônio. Mas ela não é apenas uma jovem de descendência venezuelana acorrentada pela religião, ela é, antes de tudo, uma mulher imponente, que coloca seus sonhos muito à frente das outras esferas de sua vida, tem amigas de vários tipos e não se encontra presa a preconceitos. Suas frustrações são críveis e sólidas, marcas da juventude que tem pressa de atingir seus objetivos e brilhar de uma maneira única o quanto antes; mas tudo isso ganha ainda mais peso quando ela, acidentalmente, engravida.

Uma das características mais atraentes na série é que, mesmo possuindo eventos que passem longe da verossimilhança, a fidelidade a discussões detalhadas e pertinentes nunca é corrompida, sem deixar de lado as interpretações explosivas pelas quais as novelas são conhecidas. Desta forma, a constante mudança de cenário permite que as risadas, as lágrimas e os gritos sempre tenham um sabor diferente. Por não ter uma pequena história isolada por episódio e acumular muitas curvas narrativas, a estética metamórfica da produção, junto à participação mais que vocal do narrador, faz com que a audiência não se perca nas idas, vindas e nós dados com a graciosidade e o charme que o hibridismo, cultural e técnica, proporciona.

Resultado de imagem para michael vs rafael

É claro que pluralidade sexual e comportamental também tem seu espaço, uma vez a presença LGBT na série passa acima da linha da inutilidade e não toca o sino dos estereótipos, os personagens são tão intrigantes quanto o resto e suas atitudes não dependem exclusivamente das suas orientações sexuais. No lado da contribuição feminina além do protagonismo pulsante de Gina Rodriguez, as vilãs, mulheres, são vulneráveis e possuem mais do que uma grande camada de loucura e maldade; fazem absurdos, mas os justificam com a credibilidade estabelecida desde o princípio da jornada e constroem uma aura muito mais atemporal e maleável do que aquelas que as grandes antagonistas esbanjam no gênero tomado como fonte de inspiração para JTV. Aqui, felizmente, há a chance de redenção, de empatia, de consideração das motivações e cogitação de saídas que não sejam o fim esperado desde o primeiro capítulo: Desfechos absolutistas tanto para os mocinhos quanto para os vilões. Ademais, o lado mais suave (bondoso) dos personagens não é perfeito como o pintado nas novelas, pois eles não são lentos no pensamento ou estupidamente passivos em suas ações. Já os defeitos, são vários, congruentes, realistas, frutos sadios da história construída esses defeitos são variados, congruentes, frutos sadios da história construída aos poucos e sem alegorias que firam o véu da inverdade criado pela série.

É isso, e muito mais. Tem aventura, mistério, muitas emoções, veia familiar formidável, linearidade poética estonteante e acidez gentil nos momentos certos. Para quem curte uma sobreposição alarmante de acontecimentos e não se irrita com os adiamentos e recuos nada velados que vêm com a necessidade de potencializar a carga dramática de formas exageradas peculiarmente, a série é uma boa pedida; não só por ser leve e de fácil acompanhamento, mas, ainda por cima, nunca se esquece de gerar múltiplas e válidas reflexões sobre como lidamos com segredos, responsabilidades e compromissos, seja dentro de casa, na escola ou na bolha amorosa da vida; como caímos do cavalo e como nossos melhores planos por ir por água abaixo a qualquer momento; tudo com muito bom humor e uma intertextualidade apaixonante. Além de ser um poço de sagacidade e audácia narrativa, Jane The Virgin é tão cativante e competente que me faz questionar o porquê de ela não ser mais popular. Ganhadora de prêmios e renovada para a sua quarta temporada, é uma das joias do canal The CW carregadas por mulheres difíceis, tendo Crazy Ex-Girlfriend como sua irmã.

P.S.: A cota de expressões e falas em espanhol é simplesmente um primor de esmero.

P.S. 2: Entre episódios com fragmentos no estilo Cinema Mudo e outros corroborados por saltos temporais feitos com todo o apreço situacional, todo capítulo é um novo começo de uma história contada com a ajuda de inúmeras expressões, todas genuinamente artísticas.

Anúncios