Se estamos aqui é porque tivemos uma origem, seja ela como for. Para nosso menino, até algo tão inevitável quanto o nascimento, de quem está vivo, é conturbado. Desde cedo ele não sabe muito bem para quem virar quando tem uma daquelas perguntas que requerem uma confidência que só pode existir entre pais e filhos. Desde que ele sabe que está vivo, não vê em si a influência da família que todos parecem ter tão facilmente. Essa pode até não ser a maior razão para a maioria dos problemas futuros, mas é uma boa parte da raiz que um dia viria a se tornar o maior inimigo do nosso menino: Sua autoestima. Senhoras e Senhores, com vocês, as famílias sem pazes do nosso menino!

Em ruínas
Desde o início
Desde o começo de uma vida
Desde a luta por um poder
Crateras, feras, perversas…
Milhares de centímetros longe um do outro
Desde o princípio de uma era
De quem era de todos
De quem sofrera por todos

Uma Maria e um José que nunca foram serenos, jamais trocaram carinhos de longa data, nem confessaram seus anseios bobos em relação a uma jornada mais sólida. Nosso menino é um fruto daquilo que ele mais sabe fazer: Escapar da realidade limitadora. Seus pais sempre foram opostos, mas seus caminhos se cruzaram na rebeldia momentânea, nos últimos anos do século XX. Do ato irresponsável e mal pensado, veio algo na forma que muitos imaginavam, com a abertura que poucos possuem. Nosso menino já nasceu em mundos cheios de divergências, onde o rancor dos mais velhos influenciava na falta de complacência dos mais novos. Assim, uma batalha fútil e corrosiva se iniciou, para decidir, após derramar muito sangue e suor, quem ficaria com um papel que assegurava os direitos legais sobre o nosso menino.

Bebemos da fonte da arrogância
Comprometemos a continuidade da maior andança
Com tudo que nos cerca, somos grandes
Com tudo que nos falta, somos tudo
O amor que assistimos na novela…
Voa…
Pela janela.

A nuvem negra da discussão incansável começou a pairar sobre a cabeça do pequenino assim que ele tirou sua primeira soneca. Na sala de espera, a primeira das inúmeras batalhas irracionais ganhava vida. O ódio sem fundamento e estresse desorientador foram os pilares do dilema, e posteriormente deram espaço para o desenvolvimento de vários ataques morais, como mentiras e xingamentos. Nosso menino só saberia mais sobre isso ao crescer, quando a base e emblema da relação famigerada já estivessem tatuados na vida de cada um dos envolvidos. Contudo, ele não seria o único a sofrer. Seus irmãos foram proibidos, pela mãe, de interagir com a família do pai do nosso menino; assim, a relação afetiva entre ele e seus semelhantes foi abalada, justamente no momento em que esse vínculo mais precisa de relevância.

Desamparado
Não sei o que perco
Não sei o que mereço
Enquanto cresço…
Desavisado
Não sei quem me ama
E o porquê de tanta lama
Sob a ira em cada olhar
Não sei o que pensar

Crescendo como uma bola de Tênis, sendo jogado de um lado para o outro, nosso menino criou uma camada protetora, na qual se sentia seguro o suficiente para sobreviver nas duas casas. Essa camada se tornou mais espessa, ganhou mais força e passou a interferir até mesmo em ambientes em que nenhum dos familiares estava presente. Em uma realidade mais devastada por essas circunstâncias, nosso menino se perderia na construção de sua identidade, pois interpretava um personagem diferente em cada cenário; um menino para cada configuração familiar. Em uma realidade oriunda da avalanche de trocas e complicações, nosso menino não sabia mais como se livrar da camada de proteção, e isso fez com que o artifício antes usado para trazer mais controle sobre a situação insuportável se tornasse mais uma pedra no seu caminho.

Única solução
Único meio
Única solidão
Único esforço
Único sufoco
Único perdão

Uma mão na outra
Braços de um mesmo ser
Calados em todo amanhecer

Ao passar por cada uma daquelas portas, dar os primeiros passos e falar as palavras de sondagem, nosso menino estava pronto para encarar a montanha de pedidos que caía sobre ele, todas as vezes. A casa de Maria era, sem dúvida, a mais bagunçada. O tapete vermelho da sala raramente estava apresentável, já a cozinha era palco da terra trazida do muro, onde a criançada encontrava a opção mais ampla, e fonte mais insaciável, de diversão. O sistema de organização da casa jamais foi instituído, e se foi, ele era bem ineficaz; uma vez que a divisão de tarefas era desigual e nenhum minuto da gritaria constante foi dedicado a explicação de como proceder com certos afazeres. Em resumo, não há como definir a rotina daquela casa com adjetivos respeitosos. Não há como defender tal casa.

Vestido com a cortina da sala
Histórias contadas entre os sabores
Agressões ao vento
Berços de amor calejado
Tomadas de horrores corriqueiros

Já na casa da mãe de José, a avó do nosso menino, as coisas eram completamente diferente, pois haviam pessoas maiores, e mais conscientes, e dispostas a ajudar no que fosse preciso para manter o ambiente transitável e tradicional, ou seja, “nos eixos”. O pai do nosso menino, assim como a mãe, quase nunca parava em casa. Assim como a mãe do nosso menino, ele tinha que trabalhar, não para sustentar uma família com crescimento desordenado, mas para viver as aventuras na pele do solteiro de sempre. Nosso menino, então, foi cuidado e guiado, 90% dos momentos, pela avó e tias, que não mediam custos para agradá-lo e fazer de sua estadia algo memorável. Assim, de cara, não podemos imaginar nenhum fator negativo na casa do lado paterno da questão, mas se pensarmos com mais meticulosidade, perceberemos que os dois castelos, o podre e o belo, possuem exageros prejudiciais para a formação de um bom, e são, cidadão.

O fardo pesa dos dois lados
Quando vemos, não podemos ignorar
Quando sentimos, é incontrolável
A luz roubada é única que, no final, está intacta

Esses extremos foram fatores cruciais para o desequilíbrio do nosso menino na manipulação da camada protetora. Ele não foi capaz de acompanhar o frenesi das atitudes de seus pais, que acabaram deixando-o em segundo plano, enquanto travaram uma guerra sem tréguas ou sensatez. Assim, sendo um escravo doméstico de um lado, um mimado do outro e uma incógnita dentro de si mesmo, nosso menino foi vítima da prepotência e orgulho de seus pais, que o puseram no mundo e esqueceram de canalizar seus esforços na causa mais importante de todas, a única que poderia evitar o efeito dominó no qual nosso menino viu suas chances de ser normal caírem: o amor de mãe; o amor de pai.

Peça por peça
A brincadeira fica séria
As maçãs caem ainda verdes
O olho da pirâmide não vê o povo se matar

Nosso menino tinha inúmeros obstáculos quando precisava adicionar um conceito à sua cabeça, porque haviam muitas informações idealistas em ambos os lados de suas famílias. Mesmo com ele como objeto em comum, as concepções nunca pediram ser redigidas com exatidão, assim, nosso menino aprendeu a relativizar e a entender as várias dimensões do pensamento humano a partir da ignorância dos seus parentes. Entre discussões venenosas e sem rumos, frutos psicológicos que refletem verdades moldáveis nasceram, foram abraçados por seu pai (nosso menino) e seguiram em um ciclo infinito de adaptação e contextualização alimentado por múltiplas referências.

Para sobreviver
É preciso se aguentar
Se apoiar em fraquezas
Existir sem muitas exigências
Sobreviver…

Diante de uma inconsistência dentro de suas casas, nosso menino passou a interagir com o resto do mundo através de uma lente alternativa, que o fazia perceber e viver as coisas sem ter que explorar e encarar quem ele realmente era. Até hoje, em um nível maior de claridade consigo mesmo, ele não sabe muito bem o que poderia ter acontecido com a felicidade encontrada agora caso sua vida tivesse um início tão padronizado e aceito socialmente. Os distúrbios daquela época serviram para moldar alguém capaz de conversar consigo mesmo sobre coisas da vida, dos outros, da arte e do tempo. Mesmo em desvantagem por tantos anos, a fraqueza que a desatenção de seus pais proporcionou foi indispensável para constituir o homem que ele admira e quer ser.

A história que se escreve sozinha
Um menino preso entre as linhas
Um relâmpago que não assusta, não anima
Uma vitória sem prestígio, sem rima

As fotografias do passado revelavam eventos sombrios, as do presente eram apenas borrões de cores vibrantes e tons pastéis; já o futuro se estendia de maneira atraente e confusa, com suas ramificações e possibilidades questionáveis. Nada que nosso menino pudesse imaginar parecia ser palpável ou adequado para seus limites, pois mesmo ficando mais forte com o aumento da intensidade dos baques, ele não se julgava tão grande quanto a repercussão das ações de seus pais e famílias. Preferindo deixar as expectativas em um estágio intermediário, ele obteve mais paciência e domínio sobre todas as outras tempestades que estariam por vir. Entre idas e vindas, ele mal sabia que sua vida ainda teria curvas muito mais bruscas, e que por causa da falta de confiança em suas famílias, ele jamais poderia contar com elas, saudavelmente, para superar tais tormentas.

Há mais de uma goteira
A sede é tão verdadeira…
A água suja a sala inteira
Ah se fosse brincadeira…
Apenas sonho após mamadeira
Há mais de um destino
Mas ainda temos aquele ar quente
O fervor dos inocentes
Dos que insistem em permanecer ascendentes
Há mais de uma estampa
Mais de um ardor naquela criança
E se ela chora, não para a dança
Pois o glamour mais apreciado
É o sangue negro, coalhado
Cremoso sobre o mais simbólico dos telhados
Quando tudo está, de todos os lados, acabado

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