A música é provedora de uma imersão inegável, absorvível até mesmo por quem não sabe escrever as palavras que ouve ou descrever as melodias que as entrelaçam com termos técnicos específicos. Ela submerge o ouvinte naturalmente, de qualquer maneira, seja lá como ele esteja preparado, até porque ele não precisa estar. A interpretação musical, portanto, não é algo restrito a quem a faz, muito menos a quem a estuda, pois pode ter sua essência percebida por qualquer pessoa, em qualquer momento, contanto que ela entre em contato com a música. Assim, essa manifestação artística de valor tão intuitivo e democrático representa uma porta, sem dimensões limitadas, tanto para a abordagem do sentimentalismo quanto para o enriquecimento do aprendizado através do autoconhecimento.

Os mais diferentes ritmos e letras, vindos de realidades diversas e com propósitos maleáveis são os pilares da relação entre o som e a palavra, o que se sente e o que se entende. É nessa interligação de conceitos que o ser humano se encontra além e em si, descobrindo e apurando sensações introspectivas e efetivamente determinantes na forma como ele se vê e se comporta na convivência com outros enquanto, também, manipuladores de ideais.

Por outro lado, com o texto escrito, não é assim. A assimilação das informações, das mensagens, enfim, dos sentimentos do autor nem sempre chegam ao leitor, pois muitas vezes ele não é capaz de decifrar a correlação das letras e conjuntos delas. Ao não poder fazer sua própria interpretação da obra, o indivíduo não tem uma compreensão pura, própria, independente de inferências alheias, já que, ao ouvir a leitura de terceiros, ele, enquanto analfabeto, não consome a obra “diretamente” do autor, mas através da boca de alguém que não é ele, e nunca será. Enquanto a música proporciona uma viagem particular para cada pessoa que a vive, o texto escrito tem seu sentido mais original reservado para aqueles que tiveram a chance de conhecer o mínimo dos seus parâmetros de navegação, a leitura.

Ainda mais profundamente, há outro nível de analfabetismo, aquele que isola as massas da literatura, que os reserva longe das camadas narrativas mais divergentes e, consequentemente, limita sua capacidade de se reconhecer como parte do mundo através dos mundos construídos a partir do entendimento dos autores. Tanto a Música Popular Brasileira quanto a literatura do Brasil ainda são muito periféricas, tidas como exercícios obrigatórios das aulas de Língua Portuguesa, e não como engrenagens dignas do cotidiano, do lazer, da diversão, da simples atividade de reflexão. A literatura precisa ser respeitada como fita infindável de nossas extensões mais sujeitas à relatividade, e não como patamar acima do domínio das pessoas “comuns”.

A maioria dos jovens vê os livros como vilões, porque a subjetividade presente neles é algo raro de se ver na prática, nas falas dos adultos, nas obras cinematográficas e nas canções repetidas diariamente nas rádios. No período de crescimento, eles não querem se distanciar do mundo. Já o mundo, não quer se distanciar da sua facilidade, das suas verdades entregues prontas e engolidas sem nenhuma averiguação, mutação. Os produtos artísticos gerados de pensamento crítico e individual não têm seu consumo fomentado pelos responsáveis pela oferta de conhecimento público, então continuam caros, portanto, inacessíveis. Assim, até quem quer dar uma chance às sobreposições ocultas do intelecto humano encontra mais um obstáculo, o da exclusão, da elitização da arte; coisa antiga, ainda vívida e esmagadora.

Mesmo com o advento da Internet e todas as opções de leitura gratuitas oferecidas nela, o preconceito literário persiste e a bagagem reflexiva das novas gerações fica cada vez mais prejudicada e fraca na luta contra as redundâncias compartilhadas em redes sociais. O problema não é a futilidade das coisas compartilhadas em excesso, mas a sua soberania sobre qualquer outra forma de informação ligeiramente mais dependente da criticidade de cada usuário da Rede Mundial de Computadores.

Até mesmo entre músicos, poetas e professores, há a nutrição da divisão egocêntrica entre as formas de se fazer arte com as palavras e os sons. Separar a poesia com rima da sem rima e as letras das músicas dos poemas destinados “apenas” à leitura, por exemplo, são formas extremistas e injustas, que erguem ainda mais barreiras entre as expressões artísticas e impõem valores basicamente inúteis sobre elas. Não há lucro defensível nesses padrões hostis de categorização, uma vez que eles servem somente para segregar o contato com qualquer um dos modelos criativos, sendo que o mais importante é conceber a apreciação, seja ela por parte de quem for, através de qualquer plataforma, dos meios artísticos. Afinal, o primeiro grande passo para uma vida menos refém de subordinação aos pensamentos alheios é a tranquilidade de se ter acesso ao máximo de conteúdo possível, enquanto a maior das preocupações de classificação deveria ser a que entalecesse o conhecimento científico da arte no seu cerne, e não a que fortalece, cruelmente, as peculiaridades dela, como o fato da letra da música ser feita para funcionar em parceria com a melodia e a letra do poema para a mente do leitor e do eco que ela tem.

Outro problema com a literatura, que faz parte do seu desligamento da realidade, é o fato de as pessoas sempre olharem para a produção literária do passado, ou melhor, apenas prestarem atenção a ela. Os dilemas atuais, os pensamentos do presente, as raízes que brotam das atitudes tomadas no desenvolvimento da geração do momento; todos eles passam despercebidos e não fazem parte da mentalidade das pessoas no que diz respeito à sociedade na qual elas estão vivendo e ajudando, voluntária ou involuntariamente, a transformar. Esse vício vem daquele outro costume citado anteriormente, sobre o pensamento inicial que se tem quando se toca no assunto “literatura”, como a visão dessa palavra e dos objetos intelectuais que a compõem são genericamente colocados em uma caixa que remete à antiguidade, séculos passados e estilos de vidas extintos, muitas vezes tidas como irrelevantes, logo, não-merecedoras de serem apreciadas no agora.

Tanto a pressa por respostas absolutas quanto a vontade descontrolada de tê-las sempre nas mãos afastam as mentes, principalmente jovens, das possibilidades de aprendizagem que tanto as estéticas antigas quanto as histórias de outras épocas resguardam. Desta maneira, mais uma construção psicológica infecta o modo como as pessoas lidam com a arte popular, encontrando e aceitando mais e mais formas de refutá-la e fugir dela, marginalizando-a em diversos ângulos. Portanto, perde quem só lê, vê e ouve coisas do passado. Perde quem jamais lê, vê ou ouve coisas do passado. Perde quem só lê, vê e ouve coisas do passado quando é obrigado. Perde quem não lê, não vê, nem ouve nada que não lhes seja apresentado de maneira imediatista, sem nenhum tipo de anseio por interpretações que vão além da óbvia, da geral, da impessoal.

Elucidamos diversos fatores que atrapalham o consumo regular da arte, em suas formas mais distintas e inspiradoras de vulnerabilidade, sinceridade e pensamento crítico individual. Dentre eles, ainda temos o preconceito com a produção nacional, que deturpa ainda mais a já precária identidade cultural brasileira. Enquanto nos voltamos para os sucessos norte-americanos e deixamos de investir interesse e renovação no nosso folclore, nas nossas prosas e manifestações rudimentares e experimentais, perdemos ainda mais chances de sermos seres habilidosos intelectualmente, pois não nos vemos como donos de peças valorosas no mosaico da arte global. Muito do Brasil continua sendo de nicho, das vielas do pensamento, reservado a poucas bocas, ouvidos e olhares, sob a luz de poucas consciências, sob a escuridão de pré-conceitos impregnados na forma popular de pensar na sociedade em nós mesmo.

Ouça-se
Cada ruído
Cada epifania
Cada dúvida
Do úmbigo
À virilha
Cada neurônio
Cada osso
Do pescoço
Ao dedão esquerdo
Do cabelo branco
Ao calcanhar preto


Inspirado no documentário “Palavra (En)Cantada” (2008)

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