– Pensei estar atrasado, de novo. Mas estava adiantado, e muito.

– O que você tem feito, efeito, para melhorar sua situação?

– Tanto, doutor. Tanto que fiz até uma lista. E venho atualizando-a todos os dias.

Calma. Temos que persistir contra essa sua necessidade de controlar tudo à sua volta.

– Eu sei. Eu quero. Mas fico nervoso em relação até mesmo às palavras que falo. A comunicação era para ser automática, eu já estudei isso na faculdade, mas comigo, infelizmente, ainda não é assim; e temo que jamais será. É tanto que, na maioria das vezes, quando realmente me importo com a conversa, acabo sabotando a interação com muitas informações ao mesmo tempo. Outro dia contei todos os meus transtornos ao menino que havia conhecido há dois dias por aquele aplicativo de encontros.

– Como foi a tentativa de mudança de foco de pensamento para deter seus impulsos antes que as ações desnecessárias e excessivas fossem engatadas?

– O pior é que isso até funcionou, no começo. Cheguei a ter uma esperança atípica, respirei livremente como não fazia desde que era criança. Mas em questão de semanas, me viciei em fugir dos meus ataques de manipulação e hoje em dia me perco planejando distrações. Tenho uma pasta com 10 subpastas nos favoritos do meu navegador principal, sincronizei essas configurações com o navegador secundário e o do fabricante do computador. Cada subdivisão é destinada a um tipo de entretenimento aleatório diferente. A este ponto, o entretenimento não é mais qualquer, espontâneo ou livre de minhas paranoias, ou seja, o sentido primordial foi perdido, e no fim das contas, eu saltei de uma prisão para outra.

– O que acha de aumentar a quantidade das suas vindas ao consultório? E vamos tentar enviar menos mensagens?

– É… anteontem eu fiz umas cinco atualizações na formulação da minha pergunta original e quando parei de reenviar alterações já tinha outra dúvida. Eu acho que, quando estou aqui, não tenho para onde correr. A falta de relógios me ajuda muito, e deixar o celular no silencioso também. Ah, desativei a porcentagem da bateria do meu celular, agora só sei o número exato quando ela está fraca, no letreiro avermelhado que diz “15%”.

– Não me entenda mal; a sua presença expandida aqui não será permanente.

– Certo, compreendo, mas confesso que o fato de a mudança ser por tempo indeterminado já me dá uma coceira aqui na nuca. E… doutor… sinto que não tenho nem a minha aprovação ou incentivo para nada que eu faço. Acho que temos mais um buraco para explorar e tentar preencher, só não sei se sou capaz de ir até o fim da jornada. Eu queria que tudo que me incomoda se resolvesse na mesma velocidade que eu aniquilo os detalhes que não me agradam. Eu queria não me importar com as pontas soltas que fazem parte da estrada. Eu queria ser eu e não me questionar a cada passo. Eu queria não duvidar de todas as escolhas que faço. Eu queria não querer tanto de mim.

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