Olhando pelo buraco da fechadura, quando o dia começa a morrer, posso ver o nosso menino e seu irmão. Os dois deitados sobre o tapete vermelho, vestidos despojadamente, com expressões indecifráveis e corpos prontos para o abate. Olhando com mais atenção, por mais tempo, testemunho o movimento saliente da mão do nosso menino ganhando vida, dando início a algo peculiar e cativante. É uma forma pura e sutil de afeto, sem os interesses que permeiam a vida do nosso menino atualmente. Naquele perímetro de veludo, abrindo as portas para uma oportunidade única, ele tem 12 anos… e nós estamos olhando por uma brecha no tempo.

Nós não somos só nossos
A vida que nos liberta é a mesma que nos prende
Estamos sozinhos, por enquanto
Nós não somos só irmãos
O medo que nos limita é o mesmo que nos impulsiona
Estamos aqui, agora, amando

A pele seca acorda para o beijo roubado
Ela filtra cada sensação, cada minuto da coroação
O mundo lá fora diminui de tamanho
O barulho de nossas bocas é o único rei

Após uma sessão demorada de abraços, chamegos com os dedos, tentativas desastrosas de avançar sexualmente e risadas compartilhadas, eles estão desgastados, suados, límpidos em sua humanidade largada. Entre os pingos de líquido salgado que descem pelo pescoço do nosso menino e a respiração acelerada de seu irmão sobre sua barriga, um laço ainda mais forte é instituído, sem que nenhuma palavra seja dita. O mais forte e verdadeiro silêncio é aquele que não é imposto, mas vivenciado segundo por segundo; absorvido até mesmo em suas ramificações mais confusas; compreendido através de sinais e toques, estes capazes de gerar uma tranquilidade inigualável. Ali, naquela posição não planejada, depois de ondas e curvas de paixão, o calor é bem-vindo, é parte da alívio, mas tem que ir embora. A despedida é sinônimo de renovação e complacência, por isso, antes de vê-la como um ponto negativo, observá-la com o auxílio de uma lente com maior perspectiva é essencial para não distorcer a identidade do acontecimento.

Te olho e não te estranho
Te descubro em cada canto
Seja na escuridão da dúvida
Ou na glória do momento
Se é para ser
Que seja livre de nosso julgamento

Então, conosco, estamos seguros
Longe das caixas e apuros
Metidos em nossa bagunça
Na nossa roupa suja
No nossa perda de tempo

E se os cabelos ainda levantam
Sei que nossos corações batem mais rápido
E se as mãos ainda tremem
Juntá-las é um gesto a ser esculpido

Constantemente interagindo um com o outro, vão até o quarto, pegam suas toalhas, se direcionam ao banheiro. Lá, já despidos desde o incidente na sala, se olham novamente, encaram a beleza e o medo do que está prestes a ocorrer. É mais uma etapa, um evento irreversível, um carimbo no passaporte da imoralidade, uma concretização do desejo, uma pétala da vergonha. É tudo que eles precisam, pois longe daquela umidade, tudo é áspero, toda conversa é brusca, toda recepção é maligna. Eles já não aguentam ter que assimilar a rejeição, o preconceito e a pobreza que é esfregada diariamente em suas faces esperançosas. Nus, diante de seus demônios, eles tiram a única coisa pela qual não precisam pagar para ter: Amor. Assim, sem mais delongas, eles ficam debaixo do chuveiro, protagonizam mais um contato corporal e deixam a água selar aquele vínculo; sem anúncios, nem cláusulas.

O banho é comum
O que vem com ele não
O amor é extraordinário
…Para ser celebrado
E com as costas na parede
Mais um beijo no mamilo
Mais uma mão na coxa
Mais um pouco de paz

A irmandade renasce
O medo padece
A plenitude acontece
E tudo que resta é suportável
O calor definha
O interior se anima
…Para mais uma junção

Arriscando mais uma evolução
Se enganam, mas não baixam a cabeça
Riem de si mesmos, sem arrependimentos
Enquanto a água cair, nada é mais importante
Enquanto os olhos brilharem, nada é mais confortante

Eles criam uma bolha, e nela se comportam de uma maneira estranha, possuem uma malemolência admirável; é como se estivessem caminhando sobre algodão. Cada despertar dentro dessa atmosfera pacífica e particular é um novo capítulo na história de sobrevivência dos dois; assim eles vivem e se completam, um tomando conta do fardo a ser carregado pelo outro. Enquanto nosso menino exprime sua criatividade, buscando meios de elaborar novos encontros ocultos, seu irmão trata de mantê-lo confiante e ciente de que sua verdadeira capacidade não pode ser medida através dos métodos usuais. Nesse ritmo, com a calmaria de uma relação que vai muito além do sangue e da imaturidade, nossos amados se amam como ninguém nunca os amou. Nessas condições, muitas barreiras vão se desintegrando, dando espaço aos aprendizados espontâneos que nunca causam decepção.

Nos entendemos
Nós sabemos
Cada folha, cada frase, cada letra
E na mente, nada é de repente
Nos conectamos
Nós sentimos

Dentro da bolha, o mundo se desmancha e ressurge da lama, a inocência vira lenda, tela em branco, no fim, vira a matéria-prima para que eles possam se conhecer melhor. Com as atitudes mais próximas da fronteira da infância, nossos meninos beiram a primeira mordida no bolo amargo da realidade que os cerca, e não dá colher de chá para os que começar a ter sua voz engrossada pelas transformações involuntárias. Existe um limite para a exclusão e negação, e se o foco principal é viver feliz, uma hora, encarar os pensamentos quadrados é inevitável. Nossos meninos provam o novo, o espetacular, a complexidade e exuberância das maravilhas e horrores que os aguardam do outro lado do lençol, onde poucos tipos de amor são bem-vindos.

A chuva cai como nunca
O sol queima, sem perguntas
A gente se molha, com prazer
E se derrete, de tanto temer

Queremos a paz que desvalorizamos
E a doçura do “era uma vez”
Queremos mais que sorrisos de plástico
Queremos mais que jogos de estupidez

Se isso é o que merecemos
Daqui não sairemos
Também não nos conformaremos
Com esse jeito de viver

Se isso é o que nos querem dar
Não iremos nos resguardar
Também não iremos nos rebaixar
Quando você vier nos repreender

Mas somos jovens, frágeis demais
Temos que nos comportar, poupar o gás
Amanhã, talvez, avistaremos
O que realmente almejamos
E quando menos esperarmos
Não serão capazes de nos deter

O pecado só machuca os que não o vivem, pois nosso menino nunca engoliu o que lhe deram na igreja, e seu irmão jamais se mostrou muito preocupado com o que Deus tem a dizer sobre seus desvios, sejam eles amorosos ou éticos. Na calada da madrugada, a bênção da língua familiar vem sorrateiramente, e como no tapete e no banheiro, uma tempestade de sensações se forma ligeiramente. O irmão e o irmão, juntos em uma cama de solteiro, sob a luz do luar que entra pela brecha… do telhado. O pecado só machuca quem quer ser machucado, nossos meninos nunca se sentiram culpados, estavam muito ocupados com seus afazeres proibidos, que se tornaram tão frequentes e massivos, que quando acabaram, foi de uma vez, como o corte de uma lamina afiada no vigor de um condenado.

O amor se foi
O fogo se foi
Eu me fui
Não sei aonde
Não sei porque
Apenas fomos
Sem ver para quê

Como um tapa sem aviso
Uma injeção disfarçada
O efeito é eficaz
E a percepção tardia
Meu amor se foi
Eu fiquei esperando
Sobre o tapete meio solitário
Debaixo da água meio fria

Como tudo na vida do nosso menino, não existem explicações lineares; e com um dos períodos mais benéficos de sua trajetória, não seria muito divergente. O fim chegou, sem antecedentes ou ultimato, sem os clichês emocionantes que fazem murchar até os mais belos dos jardins. Ele foi para um lado, e seu irmão, para outro. Os meses se foram, e o irmão voltou a traçar o caminho desejado pela tradição, nosso menino não se curvou antes, nem depois, da primeira ligação, no entanto, se viu fragilizado, à mercê de favores. Pronto para prosseguir, ele passou por diversas quedas, todas sem fim.

Até que o ponto continuativo chegue
Outro amor suplantará o inicial
Mas a chama que se apaga
Jamais será a mesma do final

Chegamos com tudo
Saímos com algo
Fingimos sorrir
No esplendor da alvorada

Partimos com medo
Com peso, com pena
Sentimos um anseio
Um descarte de uma cena

Nada nos resta
Nada nos matará
Nada é tão doloroso
Quanto a interrupção do que tínhamos
Nem sei como falar…
Nosso menino sou eu
Nosso amor é nem sempre é meu
E a única saída, já foi, somente chorar

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