Todos vamos na mesma direção, sob influências diferentes, objetivos assustadores e com o auxílio de métodos que despertam harmonia e desavença. Ela é a primeira de sua família a não só pensar em um futuro menos miserável, mas colocar os planos em prol dessa realidade em ação. Ela não é mais bonita, nem a mais rápida, muito menos a mais inteligente; o que não lhe falta, em nenhuma de seus dias, são sonhos. Entretanto, nossa menina tem um problema. Além de não se contentar com as injustiças que a cercam, seu amor não é expresso da mesma maneira que o da maioria das pessoas, por isso, ela sofrerá.

No encanto de uma vida recém perturbada
Nasce o desprazer de uma jovem desavisada
Desconhecedora do espetáculo de horror
Do ódio que corre solto, sem pudor

Na tela negra recém inventada
O filho mata a riqueza delicada
Luta por uma santidade desnecessária
Defende o amor, espalhando praga

A partir de quase nada, sem saber de onde a primeira farpa veio, nossa criança cai e olha para cima. Vê, pela primeira vez, a face do preconceito, as consequências das divergências, a intolerância de ser humano. Sem ao menos ter certeza sobre o que sente, ela precisa se reerguer e buscar proteção, respostas e defesas. Sem ao menos ter noção do tamanho da confusão em que está metida, ela questiona o provocador do impacto, derramando a última gota de inocência pura que lhe restava.

– O que eu te fiz?
Me diz?
Retira e máscara
Seja o que for, aqui estou
Pronta… Pronta para tudo
O que eu te fiz?
Me dá a mão e me explica
Mostra a razão da ferida
Realça a origem da dor

O fruto do medo não demora muito para se reproduzir, e logo a última fonte de luz se guarda para quando o mundo decidir ser digno da mesma. De agora em diante, nossa menina é apenas uma fração do que ela poderia ser, apenas um vestígio da essência voraz e cheia de graça, apenas um pequeno exemplar de tudo que seria possível caso já estivéssemos em uma era mais sensata, racional, avançada. A adaga que entra lentamente se instala com maestria, insulta a carne que grita sem parar, coloniza o lado do coração aonde ninguém deveria morar. De agora em diante, só tem perdição, demonstrações de desilusões e desfechos nunca escritos ou filmados. O tempo que não passa, a flor que murcha antes de desabrochar e o talento que atrofia são só alguns dos fatores que infestam as consequências do ataque.

Eu te conheço. Agora sim.
Eu sei o que tu quer…
Meu amor em uma caixa
Minha estrela fora de foco
Maus bocados, aos montes

Nem sei o porquê
Saber o que vem já basta
Já crio mil cenários
Morro um pouco por antecipação

Quando ela se apega às opções de ajuda nas quais tem depositado sua confiança, se vê de mãos vazias e trêmulas, testemunha o arrebentamento de mais uma corda de sustentação. O desconforto doméstico não é oriundo de falta de condições financeiras ou acolhimento por parte dos pais, a verdade é que ela não pode obter o abrigo necessário, uma vez que nem mesmo ela sabe por o que está passando e quanto tempo essa tempestade de questões irá durar. Na escola não é muito diferente. Seus professores não sabem como lidar com crianças que, ao olhar da massa social opressora, é uma aberração digna de desgosto. Sendo assim, ela simplesmente se fecha em mais um de seus submundos. Desesperadamente burla as leis das transições graduais e se encontra em uma posição extremamente fora dos limites que sua estrutura psicológica atual pode carregar. As dúvidas crescem, a pancadaria também, e a única solução é se virar como puder, sob a orientação daquilo que parecer mais complacente.

A ponte é rígida, mas tenebrosa
Sou pequena
Sou a primeira
Sou ignorante
A margem do rio é segura, mas oportunista
Sou forçada
Sou o que não posso temer
Pois ainda existem horrores nos arbustos

A solidão é quase imperceptível
E a união das ervas venenosas me abraça
O calor do afeto sombrio me acalma
Principalmente por me fazerem abandonar minha alma
Sou eu quem chora lágrimas sem rótulo
Sou eu quem não sabe o que pedir
Sou eu quem se confunde com as tradições
Sou eu quem não sabe quando sorrir

Os efeitos colaterais da descoberta feita por terceiros são intrigantes e animadores. Ao perambular pelo vale da indecisão, nossa querida finalmente tropeça nas portas que podem ser abertas a partir do momento que ela decidir envolver-se na atmosfera à qual somente pessoas como ela podem pertencer. Não se trata de exclusão ou divisão, mas libertação. O mundo visto por aqueles que são oprimidos possui mais definição; e ângulos. Frases não são apenas grupos de palavras, mas transportadoras de mensagens e posicionamentos, estes podendo ser tóxicos ou esperançosos. A nossa menina, por fim, encontra o terreno aonde ela poderá construir sua vida dignamente, sem precisar baixar a cabeça para ninguém, nem sair de casa usando um aspecto que não traduz o que ela realmente pensa e ama.

Lama por onde piso e onde pisarei
Varas verdes e secas de quem julguei
Mentiras que jamais contei
E verdades que sempre neguei

No bingo do julgamento parcial
Ganho e levo todos os prêmios
Sou amante do que não mereço
E mereço mais do que amo

Jamais me deixo cair, não mais
Se cair, é com gosto, e um rapaz
Numa cama de mel, com uma moça
Numa lua de fel, rasgando as roupas

A fusão entre os pontos de vista do preconceituoso e da vítima não tornam a caminhada menos trabalhosa. Ao contrário do que é fácil assumir quase imediatamente, a sabedoria tem um preço, e a paranoia é apenas um dos fatores que contribuem para a constituição do mesmo. Antes a cogitação exacerbada era nada mais que uma leve representação da fase de descontrole pela qual a menina passou após ser jogada, sem nenhum esclarecimento, no mundo de nomes e atitudes desrespeitosos, que só lhe trouxe ramificações negativas da realidade. Mas se formos ainda mais longe, até o período em que ela nem se quer havia sido detectada pelo radar dos estereótipos, facilmente identificamos a inércia social na qual ela estava inserida. Indo para lugar nenhum, nossa menina provavelmente jamais alcançaria o que lhe é de direito, o que o universo ainda guarda para ela. De certa forma, sofrer faz a pessoa ativar esferas de seu comportamento e intelecto que nunca entrariam no jogo se não através do advento da violência.

É difícil, mas eu vejo
É difícil, mas eu canto
E me emociono, quanto te emociono
Teu beijo, ainda fresco
Teu carinho, ainda meu
É difícil, mas eu desejo
É difícil, mas ainda me amo

Papéis e olhares dizem que somos pedras
Merdas, pecadores…
A batida do lado esquerdo, abaixo do pescoço diz assim:
Eu amo aquilo que se parece comigo
Aquilo que me fere no jardim
A cobra que me dá o prazer vermelho e negro
O futuro no inferno
O fogo de quem ama sem pensar no fim

Logo, com as vantagens do autodescobrimento, é possível acessar forças capazes de carregar a menina além das fases mais óbvias da sobrevivência, quanto aos níveis mais complexos, e portanto, imprevisíveis, cabe a ela combinar seus conhecimentos adquiridos antes da percepção. após a primeira queda e ao longo do mapeamento das leis que governam cada ser. Garantias são riscos tão instáveis quanto altos índices de otimismo, já que para pessoas como a nossa menina, acreditar nas melhorias é considerado uma perda de recursos. Para danificar ainda mais a fluidez do processo, grande parte dele, muitas vezes, é realizado fora do campo de visão daqueles que ainda não estão preparados para entendê-lo, e que só atrapalhariam o desenrolar das provas com suas conclusões quadradas, endossadas pela durabilidade de considerações prontas e, segundo seus hospedeiros, irrefutáveis.

Ei, eu, aqui, assim, comigo, para sempre
Me dá um cheiro, se derrete em mim
Me diz o que sentes quanto me sente

E os amores de tantas páginas?
Cadê o apelo que machuca e afaga?
Ei, nós… Pare de se esconder e se atrasar
Venham a mim, compartilhem do meu… Sei lá

Ela rasteja como se tudo estivesse perdido, mas algo ainda a esperasse onde a correnteza é mais suave. As costas que ardem por causa das chicotadas são apenas novos componentes de uma expressão revisada por uma pessoa que enxerga uma mudança de destino, e ainda segura, com as duas mãos, a homogeneidade que nunca foi sua. Ela derrota um dragão por dia, e dois nascem toda vez que o sangue chega ao ralo. Ela é sou eu, eu não menina, e nem menino, eu sou aquilo que me der na telha, pois confio no que me inspira, no que alucina meus instintos, até quando a dor é o único sentimento batendo em mim… na minha porta.

Quero sua atenção e seus pêsames
Quero desculpas e meus sonhos de volta
Quero a normalidade inatingível
Quero que se livre do rancor que me assola

Meu peito clama, repete o pedido
Derrama o líquido que deveria aproveitar
Meu pinto também ama, se joga
Deseja o deleite de um irmão tocar

Sou sujo, como você
Sou belo, como você
Somos todos farinha do mesmo saco
Bichos fajutos e frágeis
Feras em nossos quartos
Belezas arrasadas por tudo
Humildade[s] em quase nada
Somos a imagem um do outro
Só que você não mostra a cara

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