Um mau começo
Para uma boa história
De inúmeros tropeços
No horror, a glória
Uma grande tragédia
Exagero na estética
O teatro é o mundo
O vilão mais imundo

Três crianças
Três órfãos
Três esperanças
Três mentes
Três reféns
Três influências
Três forças
Três elos

Numa nova adaptação
A acidez não deu as caras, não
Não tanto quanto seria formidável
Se ardesse mais, seria mais estável
Algo mais corrosivo faz muita falta
Algo mais desruptivo faz muita falta

Essa nova fórmula tem muito açúcar
E a poesia se torna sonífero
Não há robusta interpretação astuta
Não há bússola de contundência?
Com uma aventura apaixonante
Consistente e deveras horripilante
Aqui, temos um festival de momentos
Não grande corrente de polimentos

O texto apresenta críticas
Sociais, comportamentais
Sempre com veias ora vívidas
Mas no geral, meio triviais
Mas gerar incômodo é o básico
Não pode ser visto como espetáculo
Não neste nível tão mero, tão ordinário

Por outro lado
A narração
Ah, a narração
Ecoa desilusão
Tem ótima entonação
Constrói bem a tensão
Apesar de ser, frequentemente
Um tanto excessiva, repetitiva
No fim, na nata, não decepciona
Corrobora, enaltece, emociona
Potencializa todo a trama
Dando-lhe um tipo único de drama

As atuações mirins, coitadas
Não transcendem quase nada
São pedras cinzentas na estrada
Perdidas em meio aos eventos
Indiferentes aos mais simples sentimentos
Não contribuem muito para o entretenimento
Suas colocações são tediosas e robóticas, apáticas
Suas movimentações são rígidas, jamais práticas
Nunca vestem os talentos narrados brilhosos
Esbanjam, constantes, olhares fáceis, preguiçosos

O fator extraordinário é fato
Mas apenas um borrão não basta
A paisagem precisa, ainda, ser retrato
Não uma ambígua insossa pasta
Tudo parece inacabado, apressado
Os detalhes, senão genéricos, desfigurados
As sutilezas são pétalas de imenso contraste
Complementam as beiras do belo desastre
Refratam o estilo melancólico e surreal
Mas mantêm a obra na irrelevância cordial

Ó fotografia
Onde estão suas linhas?
E seus ângulos inventivos?
E suas engrenagens distintas?
Tudo é tão monocromático
Sem pretos profundos isolados
Sem brancos que suplantam
Sem graduações que enganam
Onde estão suas surpresas?
Onde deixou sua indelicadeza?
Por que não revisou seu rascunho?
Onde ficaram as melhores colocações?
Por que não investiu mais nas sobreposições?

O verde lixoso consome
Quando a prata mórbida emerge
E o azul perdido se contorce
Envolta do eventual vermelho nobre

O ator
O mais famoso
Na pele do corvo
Do maldoso por inteiro, interesseiro
Barbicha de intriga, furacão de cabelo
O ator não o incorpora dignamente
Não provoca tempestade na gente
Não planta arrepios incandescentes
Não é memorável, nem convincente
Não fundamenta a atmosfera desejada
Mal sustenta o mito da proposta almejada
O sangue em seus olhos não são piscinas
São gotas sem saturação íntima, genuína

Autor, narrador
Sempre ao centro
Sempre à frente
Sempre descontente
Impõe certo respeito
Se firma em seu conceito
É atípico, mas carismático
É grave, é sincero, é mágico!

Netflix…
Acho que a ideia é válida
O conteúdo é frutífero
Mas os ingredientes, não
Mas a execução, não
O que faremos?
Como se levantar?
Em quê mirar?
Para onde remar?
Netflix…
Foi precipitação?
Foi antecipação?
Foi descontrole de abordagem?
Foi pressa de começar a viagem?
Netflix…
Seu crédito é mais que positivo
Ficarei mais um pouco, por causa disso
Espero me surpreender em meu compromisso


Anúncios