De acordo com o relógio comprado na feira da semana passada, decorado com figuras semitransparentes dos Power Rangers e levemente arranhado após um chamego não programado com a parede da sala, são quase 7:00 horas da manhã, nosso menino está prestes a ultrapassar a primeira das inúmeras barreiras dolorosas e corrosivas que o aguardam.

O suor é frio
A calma mata
O fogo é jovem
A coruja já explora
A mente de quem chora
Sem saber o preço da lágrima

As condições climáticas e o silêncio disputam o título de elemento mais aterrorizante da ocasião. Logo, apostar em qualquer um dos dois é um risco enorme e desnecessário, mas nosso menino, desde sempre, adora plantar dilemas em sua cabecinha, só assim ele é se considera apto a ignorar os verdadeiros problemas, os únicos que importam. A brisa é delicada e cruel ao mesmo tempo, um tanto imperceptível, mas incontestavelmente congelante. Nenhuma das bocas nervosas de antes parecem estar dispostas a se manifestar diante da mudança iminente de pequenos costumes, que aos poucos se tornaram fardos quase impossíveis de carregar.

A amor de ontem não protege mais
A ferida de hoje é a que satisfaz
Uma morte chega mais perto
E a ameaça fortalece o feto

Meu amigo é quase nada
É poeira na beira da estrada
É gota de leite na garrafa de café
É beijo molhado no cadáver afogado

Nosso menino não é realmente nosso, apenas gosto de me referir a ele desta forma singela e neutra. Apesar de bastante comunicativo e esperto, a maioria de seu tempo é gasto dentro de casa, entre o calor proporcionado pela companhia dos livros e pela quantia colocada generosamente por seu pai sobre a mesa todos os meses. Entre pinturas e caminhos verbais, ele se perde e esquece que, do lado de fora, milhares de coisas instigantes chamam seu nome. Parte dessa lacuna foi aberta pelo medo dos parentes de que o menino fosse corrompido, muito cedo, pelas maldades geniais que não são poucas. A outra metade da culpa, se é que podemos julgar tal assimilação como uma das agulhas enfiadas nas costas do nosso menino, é a conformidade na qual o pequeno homem se viciou.

Há uma cúpula de mel
Nada mais importa
Nada mais vale a pena

Há um desenho do céu
Nada mais é tão azul e límpido
Nada mais é tão divino e esplendoroso

Fruto de uma vida curta, repleta de conveniências e cercas imaginárias, ele não está pronto para encarar uma rotina completamente constituída por possibilidades criativas, encharcadas em um drama mastigado e concepções minimalistas. Muitos, se não todos, dos sentimentos que serão apresentados naquele espaço colorido e acolhedor são estranhos para o moço que jamais teve contato com outras fontes, sem que este fosse programado e analisado pelas versões mais amadurecidas no pequenino. Por fim, enquanto ele flutua nas questões mirabolantes e cogitações pessimistas, o tempo passa rápido demais, o coração inexperiente acelera e o olhar de quase sempre, pela primeira vez, é genuíno; tudo isso porque finalmente, antes que a chuva caísse, a sirene tocou.

A chuva caiu logo em seguida
O mundo se molhou mais ainda
As mentes ficaram ainda mais férteis
A verdade é a prova d’água
O sufoco ainda atormenta
O óbvio não está normalizado
A vida de quem sofre é longa
E a aula está só começando

Mal sabia ele que, aqueles passou trêmulos, sustentadores de uma postura ainda mais preocupante, eram os símbolos iniciais de uma jornada repleta de desafios ocultos, memórias invasivas e participantes de outro mundo. A transformação pela qual o nosso menino teria que passar não seria nem um pouco parecida com a das outras miniaturas de gente, muito pelo contrário, ele, criador de problemas nato, seria o maior vilão, o maior questionador, e a maior chance de vitória que a história prestes a ser escrita poderia ter. Nada se compara ao poder de construção e manipulação presentes dentro daquele corpo tão minúsculo. Grande parte das descobertas seriam, em sua essência, lindas. Contudo, todas elas teriam, nem que fosse apenas uma pitada, vestígios do intelecto avançado e desfalcado que nosso menino hospeda.

Acredito em você
Por que?
Porque sei que não dirá adeus
Nem que a vaca tussa, morra, renasça

Acredito na minha crença
Deito-me com ela
Temos filhos invejáveis
E os mato e os consumo
Com orgulho
Pois sei, sem me esforçar
O foco e afeto
Entre o momento e o lugar
Onde estou e onde quero chegar
Sem tropeços? Quem dera
Tão duradoura quanto a agonia
É a danada da espera

Ao sentar-se naquela carteira vermelha, com os braços cruzados e os mecanismos de defesa 100% calibrados, a caminhada multidimensional recheada de rancor, dúvida e prazer é iniciada. A ovelha invisível pinta, dia após dia, uma nova camada da máscara, e assim, aperfeiçoa a maior e mais influente das mentiras que traçam o curso de seu destino. Para o mundo, ele é apenas um menino inteligente, tímido, possivelmente homossexual, gordo, pobre. Para ele, ele é uma tela em branco, capaz de alterar as estruturas de um grão de areia até que todos possam nomeá-lo um festival inesquecível de coisas aparentemente fúteis. Enquanto se vê como um mar de opções inacabadas, ele também pode reorganizar uma sequência de expectativas para que ela sirva como uma ladeira de acontecimentos surpreendentes e admiráveis.

É mágico, e natural, e mágico mais uma vez
É meu e seu, e de quem tem loucura na veia
Meu bem, é de quando a gente gritar
Meu desejo, é de enquanto houver o que arruinar

Diante da morte de mais uma virgindade, a quebra de lacres antes temida torna-se algo normal, mas não para o nosso menino. Para ele esse primeiro dia de aula é apenas mais um passo na chatice que sua existência tem sido até o momento. De tanto desejar curvas impressionantes, ele verá seu sorriso derreter gradualmente, cada vez que a injustiça se fizer presente nos diversos capítulos que ele pretende protagonizar. Nem só de doçura vive um ser humano, no caso do nosso menino, ele até desistiu de acreditar nessa maravilha rara. O despreparo gerado pela criação limitadora culminou no julgamento extremista ao qual ele sempre recorre; na questão da esperança e paciência, não foi diferente. Ao se deparar com mais formas e exemplos de inconsistências no desenrolar de seus anseios, ele deixará de validar as recompensas que as pessoas orgulhosamente usam para diminuir a intensidade do desapontamento. Nosso menino vai ao fundo do poço, e coloca o lodo no topo da lista dos ingredientes para a receita mais polêmica e desconhecida: O futuro.

Trágico, perfeitamente sincronizado
Roteiros dos deuses, no relato e no retrato
Relevo emocional estupendo
Nu. Namorado do vento

Tantos lápis roubados, tantos rótulos lançados, tantas discussões adiadas, tantos baques renovados. Nada seria tão poderoso se nosso menino não tivesse, em todas as ações, a adoção dos sentimentos como prioridade. Cada segundo de dor, cada momento de constrangimento e cada discurso de ódio não são perdidos; eles são meticulosamente armazenados e estudados, para um dia serem instrumentos de vingança; seja ela como for. É lindo ver o amor por tudo ser contaminado, graciosamente modificado para se encaixar nos padrões de putrefação e realismo empurrados goela abaixo.

O caos vem com tudo
E nós o abraçamos
Somos inteligentes
Somos abertos
Somos que não amamos

Jamais me deixarei
Nem me perdoarei
Sou a paz apenas na palavra
Sou a mentira cobiçada

O animal por dentro é, acima de tudo, real. O animal por fora é, de todos os lados, apenas mais um animal. O maior defeito não está na disfuncionalidade familiar, nem nas relações sociais conturbadas, muito menos nos planos incompreensíveis; o maior defeito está na dificuldade do nosso menino de encarar a si mesmo, parar e simplesmente viver. Talvez isso seria mais fácil, se fosse mais fácil.

Falaremos até perdermos a língua
E a vida?
Beijos e cartões gratuitos
De longe temos tudo
De perto também
Plenitude é relativa
Necessidades também
O vampiro que me suga
Morre de fome, de nojo, de paixão

Mentes sem tapas
Com moldes rachados
São minhas e são muitas
Que coisa mais estranha… Não?

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