A arte de acreditar em meus sonhos… Ah, a arte de acreditar em meus sonhos. Às vezes, os deixo de lado, viro minha crença para as palavras prontas de ideais inexistentes de todos os dias, chego a delirar de tanto alívio, mas não me contento com o vazio e sua plenitude, então volto a velejar pelo mar de desistências variadas com meu barquinho todo remendado, cheio de fraturas antigas e recentes, todas exprimindo uma persistência anomalística. Retorno porque percebo que não se trata de crer, mas de sentir.

Regresso porque me sinto inteiro, mesmo incompleto, aqui; mesmo tendo que sacrificar meu progresso pela minha sobrevivência, mesmo tendo que adiar muita coisa, mesmo tendo que ver minha vida passar e eu não conseguir o que ainda quero com todo o amor de sempre. É que, mesmo com tão pouco se tornando realidade, eu ainda encontro mais felicidade nos pequenos momentos que são realmente meus; mesmo os obstáculos sendo tão imprevisíveis e as resoluções tão escorregadias quanto no começo da jornada. É a loucura que eu não consigo parar de louvar, que eu não ouso apedrejar, que eu não aceito que açoitem, porque não entendem, porque não acreditam, porque não sentem. E eu, mesmo que queira me enganar, sei que, sempre, no fundo da minha essência, a chama dos meus objetivos queima involuntariamente.

Até acho que elas seguirão muito depois de eu beijar o chão, porque por onde ando, permito que minha sede por realização ecoe junto aos ventos dos fins de tarde quanto a chuva tardia chega no meio do sertão partido pela seca decorada por meses com sangue seco ossos pulverizados.

Minhas exclamações, meus rabiscos, meus olhares devotos aos céus, meus lábios fiéis aos assobios que embalam escrituras nas madrugas dos ápices do verão que castiga seja lá qual for a sua fase, se é que há mais de uma, a dos ápices. Eu me sinto tão completo, como criança que ganha confeito depois de carregar as sacolas da mãe durante toda a feira de sábado pela manhã. Me sinto tão feliz quanto aquele moço no filme do Titanic, aquele que grita que é o rei do mundo.

Mas não esbravejo, pois aprendi a guardar meus anseios. Não tenho vergonha deles, apenas os quero protegidos, longe de sabedorias carrascas, oportunidades que não me pertencem, futuros que não têm meu nome na aba de proprietário. Mesmo que minha vida não seja uma novela, sou o herói das minhas ideias, já tive algumas delas roubadas, e prometi para mim mesmo que nunca mais falharia para com minha missão de levá-las sãs e salvas até onde eu não sei o nome, até onde eu sei que elas merecem chegar.

Enquanto não alcançarmos o ponto anônimo da vida, se é que alcançaremos, me contento em viver, pois também já desisti de me lamentar, de tentar fazer os problemas desaparecem me enterrando em pensamentos negativos, me afogando em garrafas de cachaça, cogitando a desistência sem retorno, regresso, sem volta alguma.

A vitória pode nunca vir como eu a imagino, ela pode até já ter vindo. Minha felicidade simplista pode ser minha maior conquista, muitos nem isso têm, muitos não deixam de se preocupar com o que não têm.


Inspirado no filme “Boi Neon” (2016)

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