Quem alega não estar perdido, está mentindo. A verdade é que nós nunca nos encontraremos completamente; e isso é muito assustador, mas também guarda uma porção de oportunidades incríveis, como se calar diante de algo novo e estranho, sentir e aceitar o carinho que tal coisa oferece e deixar que ela penetre seu pensamento, dando-lhe novas possibilidades para uma vida menos regida por mentiras automáticas. Em seu álbum de estreia, Willow faz justamente isso, se desprende da imagem Pop forçada anos atrás e nos mostra algo realmente instigante que, por sua vez, desperta uma sensação inédita, uma mistura de espanto e satisfação.

Classification and organization is ruining the minds of our generation
I said it
That’s why they’re always staying up in the sky
They add a new design to it
But they’re on their phone and I’m on a roll
And I do not care cause I am the oldest one
Up in my mind, but not in real time
I’m just a… teenager
But I feel angrier than a swarm of hornets
They call us whores but it’s just because
We do what we want and don’t look back once
Is that what it’s come to? No, no
My parents are 1 and 2, and I am their child
I am 3, I am the wild
I am free
We are the children that sing the ancient song
And we can sing it very well
But there’s still so much to learn
There’s still so much to earn
But I yearn

Não se trata apenas da idade da moça, nem de quem ela é filha, mas grande parte da qualidade vem do conceito que a artista se empenhou em construir meses antes do lançamento surpresa desse trabalho mais extenso. Sem alarde, nem propagandas estúpidas e apelativas para as massas, a jovem se pôs no lugar da mulher que ela é, e abriu sua boca para nos banhar com uma sonoridade e mensagem que vão muito além de tudo que outras praticantes da mesma arte estão disponibilizando em pleno século XXI.

Sim, eu trago à tona o cartão da época, até porque eu sou pró-feminismo, e acredito que a mulher, enquanto cantora, performer e compositora, merece saber qual é o seu posto, a sua dignidade e a importância da sua presença. Willow  executa esse anseio meu. Até nas canções mais cheias de vulnerabilidade e apreensão, a garota se impõe de uma maneira contundente e sólida, firmando tudo que fala nas entrevistas, provando que os posicionamentos fora do comum não eram apenas jogadas de marketing, mas a pura verdade sobre a sua essência e o seu foco enquanto disseminadora de conteúdo e sentimento. Assim, fica até difícil encontrar os defeitos no produto, já que sua dona o constituiu tão isento de futilidades e elementos aleatórios ou gratuitos.

Nem só de títulos grandes e rimas inesperadas vive o ARDIPITHECUS (2015). Logo de frente, a realeza da capa implanta um clima de peculiaridade, coloca o ouvinte numa posição defensiva e muitas vezes o afasta do botão de reprodução. Mas estamos na chuva, então vamos nos molhar… E que chuva levamos, que montanha-russa, que estrondo! Não é exagero, ou talvez seja, talvez eu seja tão louco e afoito quanto a artista em questão, talvez eu nem beire o verdadeiro significado das composições; mas não vivo de suposições, eu vivo de emoções, e esse álbum tem emoção de sobra.

And they all fell
From the sky into my eye
I did not cry, I felt alive
And not so blind, anymore
Oh, I yelled out into the atmosphere
I hope you’re here
Oh, they say how I was gone for a long time
But for me it was five minutes, aye
That’s relativity for you
I could show off for you and you wouldn’t even know, ah
No you wouldn’t even know
It’d just be a subconscious plant in your mind
A subconscious plant in your mind’s eye

I don’t know why I cry, I lie, but I
Just feel my way through life
And try to be that shining light
For you and for me
Oh, we don’t get an eternity oh
It’s all an eternity
I don’t know why I cry, I lie, but I
Just feel my way through life

A última faixa, “Why Don’t You Cry” é mais comercial de todas, tanto por ser mais dançante e “menos complexa”, quanto pelo fato de tratar dos sentimentos de Willow com uma plasticidade mais nítida, tornando-a menos refém de uma dedicação mais vívida por parte do ouvinte. Mas não parta para conclusões precipitadas, pois não estou dizendo que a música aqui tratada é feita para intelectuais. É aí que está o erro da indústria, do nosso gosto geral, da nossa responsabilidade para com a inteligência que flui em nossas veias.

Se somos tão portadores de mentalidades únicas e potentes, por que não a usamos para fazer do nosso cotidiano algo mais produtivo, avançando, assim, a evolução do nosso julgamento para com os vários assuntos que podem ser abordados e discutidos através da música? Por que será que nos contentamos com temas mastigados e temáticas puramente destinadas à atos destrutivos? Por que resistimos e nos recusamos a dar uma chance a materiais como esse, da Willow, que são brilhantes simplesmente pelo fato de irem contra a corrente viscosa na qual estamos “presos”? Será que somos tão portadores de mentalidades únicas e potentes assim?

Elétrico, perturbador, íntimo, pessoal, cru, cruel, desafiador e coerente. Sem filtros complacentes ou sentenças açucaradas, o álbum sob análise é para pessoas que estejam dispostas a descartar tudo o que elas normalmente associam aos profissionais juvenis desse ramo. Sem cortes bruscos e curvas narrativas infiéis, o LP consegue estabelecer uma relação de coexistência com os outros tipos de arte no mercado, pois não os rebaixa, apenas os coloca em um patamar menos digno de tanta glória; afinal, a vida não é feita apenas de festas, sexo e frustrações que podem ser resolvidas com o apertar de um botão. Os problemas existem, eles precisam ser enfrentados, eles precisam ser averiguados e entendidos, eles precisam de uma voz que os explanem sobre a mesa e os descosture com a coragem mais primitiva possível. Apenas seguindo seus instintos é possível encontrar o melhor dos caminhos.

Podemos enxergar e indiciar esse trabalho como uma grande viagem pela consciência da cantora, principalmente porque todas as questões levantadas pela mesma são extremamente relevantes e podem ou não estar ocultas em nossas cabecinhas. Sem mais delongas, a calma é o único requisito para aproveitar as insanidades cultivadas em todas as 15 faixas de um capítulo que tem gosto de protótipo, mas exala experiência e certeza.

É hora de, aos poucos, pararmos de ir pela rota mais usada e, sem muita hesitação, tentar coisas que nos coloquem além das fronteiras dos nossos talentos. É hora de renascer, crescer, aparecer e se destacar no meio da multidão. A densidade das coisas é real, basta a reconhecermos, basta a aceitarmos.

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