Hoje, espero que você tenha a mesma sorte que eu, pois estou prestes a te apresentar algo realmente bom para mim, no intuito de transmitir a mesma satisfação, fazendo com que o seu dia fique ainda mais carregado de energias boas e inspirações refrescantes. Pegue seu suco de abacaxi, deite-se despojadamente no sofá e aproveite a viagem.

Aqui vamos mergulhar no álbum do rapper americano Hoodie Allen“Happy Camper” (2016). Além de ser bem mais leve do que o seu trabalho de estreia no mercado profissional, esse segundo CD traz uma proposta mais consciente e condensada, com as velhas referências de cultura pop.

Sem toda aquela instrumentalidade frenética do “People Keep Talking” (2014), fica bem mais fácil diferenciar o Hoodie dos outros artistas desse gênero, principalmente porque, mesmo falando de ostentação, conquistas enormes e mudanças de vida extraordinárias, ele permanece em um pedestal de humildade que, pode até ser de vidro, mas não deixa de ser crível até nas mínimas nuances das letras que são entregues em todas as 10 faixas que compõem o trabalho.

Dentre todos os exemplos dados de que esse material foi feito com mais naturalidade e menos pretensão, a primeira canção é o tapa mais nítido que o artista dá em si mesmo. Ele recicla alguns elementos narrativos usados no trabalho anterior, mas os organiza de uma maneira completamente mais empática. Assim, sem muitos esforços, “Intro to Anxiety” funciona muito bem como um desabafo e uma demonstração, explanando os demônios de criatividade do cantor e mostrando que ele pode ir além ao diminuir a intensidade prepotente de sua performance.

Yo, life can be super happy, life can be super sad
I’m trying super hard to separate the good and the bad
I’ll go back to my future just to get to my past
But knowing me, my DeLorean would probably crash
Sometimes I get in a taxi when I ain’t got no cash
Worry if my credit card don’t work, then I might have to dash
Have the cab driver chase me 20 blocks down 7th Ave
And if he catching up to me, I know he’ll wanna kick my ass
Damn, that’s one hell of an imagination
Even worse than talking to these girls, I get infatuated
Send a text and it go green, wonder what that fucking mean
Like did it send, has it been seen?
Why ain’t she writing back to me?
Probably chatting with some other guys and I feel jealousy
Two days later, she write back, like S-R-Y, I fell asleep
I think I’ll be alone forever, maybe I’ll live with my parents
That way I could eat the food and never feel embarrassed cause

Com destaque para “Are U Having Any Fun?” e “25th Hour”, a descontração fica bem mais óbvia, e ainda mais interessante quanto consolidamos o conceito de que algo não tão elitizado e esplendoroso pode, sim, emanar qualidade e causar um efeito tão prazeroso, ou até mais duradouro, quanto aquelas canções populares que não param de tocar no rádio.

Numa glorificação das nossas considerações, temos “Surprise Party”, uma verdadeira surpresa no timbre adotado pelo artista e nos arranjos melódicos escolhidos. Juntos, esses dois elementos formam uma balada de rap no estilo trap, ou seja, uma bagunça organizada, com propósito, com identidade e futuro. A participação de Blackbear é, apesar de quase desaparecer em meio as batidas penetrantes, nem um pouco descartável, pois mesmo sendo um tanto irrelevante, reafirma a certeza de que o foco do CD não é exatamente causar espanto, mas empatia e proximidade, familiaridade.

I been walking ‘round like I don’t give a fuck, fuck, fuck
And it’s probably for the better baby
I don’t talk too much, I never speak enough, enough, enough
I just keep my secrets hidden
Tell me lies, tell me lies
Oh you graduated, with a three point five GPA in communications
And you in LA for the day, this is your vacation
Brought your friends into my crib
But you’re the only one that’s staying
Well that’s me, just being a little cocky
We can do it on the stairs like I’m Rocky
I could prepare you a three course meal but it’s not me
I rather eat her out like Hibachi
So stop the conversay, it’s like a holiday
The way you bless me girl, that’s Godly

Sem picos gritantes ou discrepâncias imperdoáveis, “Happy Camper” descreve uma jornada de um jovem sonhador, que largou uma carreira rotulada como normal para seguir seu objetivo de se tornar um rapper notável antes para si mesmo e depois para o mundo. Aqui, muito mais forte do que no primeiro álbum, sem a pressão de uma estreia oficial ou a necessidade de agradar o máximo de pessoas possível, Hoodie chama um monte de gente e constrói algo que lhe traz razões para erguer a cabeça no final do dia. E no fim, isso pode ser apenas mais uma jogada de marketing, mas não deixa de ser um condutor de uma mensagem que deve ser disseminada em todos os tipos de vida. Não importa o quão árduo algo seja para você, nem de onde você sai, se o seu alvo é realmente o que faz seu coração bater mais rápido, pare de se lamentar e vá em busca disso, dê a sua cara para o mundo bater, aguente cada soco e sorria após cada um deles, seja o guerreiro que você precisa.

Na música, encontramos a oportunidade de desacelerar, pensar, desabafar no nosso interior e nos preparar para o que está por vir. O rap é um dos gêneros mais expressivos e de transmissão mais fluida, afinal, há mais pessoas no fundo do poço do que no topo das torres de ferro. Esse CD do qual falamos pode não ser o mais vendido ou o mais influente, mas com certeza guarda uma lição que devemos repetir até o nosso último dia: Nem que seja só um pouco, só um dia, é preciso ir contra a maré, fazer o que se gosta e viver o que se ama antes de se render àquilo que já se tem e ainda se quer.

P.S.: O álbum, na verdade, é uma mixtape, um conjunto de faixas sem muito compromisso com a gravadora ou laços fortes comercialmente, mas é tão sólida que merece ambos títulos. Abaixo, o álbum-mixtape completo(a) para vocês!

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