Ainda lembro daquela noite, escaldante e barulhenta, na qual a sua ausência foi intensificada pela perda de mais um traço da minha esperança. E com a memória dos momentos em que nos amamos, tenho dificuldade, pela milésima vez, de apontar com clareza os motivos pelos quais não nos abraçamos mais, não nos beijamos, não nos bastamos.

Embora o coração esteja calejado, e o futuro pareça mais turvo a cada dia, meus esforços não são poupados, pois eu, mais do que ninguém, acredito que mereço todo esse amor que dorme dentro de mim.

Você, aí, na outra extremidade do continente, só me esperando, querendo um pouco da alegria que somente a nossa união pode proporcionar. Eu, aqui, de frente comigo mesmo, com vergonha de quem estou me tornando, pois não sei se é quem realmente sou, já que falta o ingrediente principal. Nós, assim, do lado do outro, mentalmente; e tão distantes na realidade que nos governa. São tantos eventos queridos, esquecidos, descartados, jogados na rua dos anseios menosprezados; todos possíveis monumentos emocionais cautelosamente reposicionados para não chamar nossa atenção. É incrível! Nada funciona quando tentamos ir contra o sentimento que não conseguimos negar, nada é tão forte quanto a agulha que vai mais fundo, toda vez que abrimos a boca para beijar outras bocas, e penetrar outros olhares.

Já te disse adeus de não sei quantas formas diferentes; e você não precisa me ligar para eu me ligar, nosso vício é como um incêndio infinito e incontrolável; nos consome sem dizer o porquê, mata nossa cede de caos, nos entrega um tipo tóxico de prazer; é a única coisa que nos faz aguentar, como aguentamos, ficar longe um do outro. Você já me deu flores que eu nem sei o nome, e me disse palavras que ainda não aprendi a escrever, seus gestos me guiam e me hipnotizam; são verdadeiros mestres na arte de me conhecer. Nós nos queremos tanto, e até hoje, não fomos brilhantes o suficiente para descobrir a chave do encontro definitivo.

Com o tempo, o cansaço vem, mas a chuva de lágrimas também, e no dia seguinte, estamos prontos para mais uma batalha sem sentido, onde apenas o lado desconhecido da força tem chance de ganhar, pois mesmo com tanto amor envolvido, ainda escavamos e elaboramos maneiras de nos sabotarmos.

Não se trata de questões geográficas, civis ou morais; estamos de bem com tudo que somos e podemos ser. Dentre todos os elementos da nossa relação, os únicos visíveis são justamente aqueles que dominamos e entendemos. Além de nos desorientar e afastar, o segredo da felicidade se torna mais surreal e inatingível toda vez que desenvolvemos manobras visando desvendá-lo. A conformidade, no nosso caso, parece tão aconchegante e onipotente. Até já cogitamos simplesmente viver assim, mediocremente, aos pedaços, aos prantos e baques; mas não dá. Também já colocamos nosso pescoço para fora da janela, torcendo para que outro bonde viesse e nós pudéssemos estar, de uma vez por todas, juntos. O fim, ou melhor dizendo, a continuação, você já sabe.

Vivemos nos dizendo frases bonitas, engolindo mensagens incentivadoras e glorificando melhorias magníficas. Todas culminam no mesmo sentimento de miséria e inferioridade ao qual nos apegamos sem questionamentos, e damos tanta credibilidade, que as consequências te tal ato alienado são automaticamente categorizadas como irrelevantes. Pensar e agir desse modo é apenas uma, das várias desvantagens de amar e se corroer inconsequentemente. Para muitos somos loucos, anormais, aberrações. Mal sabem eles que nosso amor é tão corriqueiro e condensado que, em quase nenhuma de suas esferas, nos comportamos sensatamente. As ondas de sugestões vêm, nós as recebemos e replicamos, em nossas mentes, o discurso que elas trazem. Diante do medo de fazer mais mudanças a partir de nossa intuição conjunta, adotamos o pensamento de terceiros, abrimos as portas frágeis de nossa relação para a interferência daqueles que nunca a entenderão.

Em vez de louvarmos as citações aleatórias, deveríamos contemplar a durabilidade e persistência da bondade de nossa amizade. Em um mundo cada vez mais ácido e perplexo com qualquer movimento, a consistência de nossas demonstrações de carinho deveriam ser o único pilar do nosso destino. Entre melodias vibrantes e cores em ponto de evolução, somos o filme que jamais temos tempo de ver.

Intocáveis são as pequenas mortes diárias; aquelas que se tornam reais vagarosamente, deixam sua marca em nossa pele e vão embora sem nenhuma explicação. Mesmo podendo introduzir explicações, alimentam as chamas com mais dúvidas alienígenas. O fervor que resiste não é o mesmo que nos agride; este último permeia as fronteiras da nossa coragem e nos faz perceber que lá fora existem menos sanções para os desertores. Sendo assim, ficar firme não é só uma tarefa, mas uma prova de amor próprio e mútuo, que serve como certificado de valor para nosso elo. A partir de tais constatações, compreender porque ainda nos suportamos e seguimos em frente não soa tão insano quanto antes.

As recompensas que vêm após o uso da calma são isentas da negatividade que sonda nossas ações. Ao ver, bem no fundo, que merecemos mais um beijo, um toque e um chamego, temos a chance de colocar, nem que seja apenas por alguns instantes, os problemas indescritíveis debaixo do tapete. O corpo chora, mas a alma ainda é imponente, radiante e otimista; ela acredita, até mais do que a gente, que podemos ser o que tanto almejamos, mas nunca avistamos.

E se conseguirmos? Quem seremos? Como viveremos?

De longe, do alto dos picos da improbabilidade, falar que a vida perfeita será perfeita é fácil, é simples demais para colocar no papel e levar a sério. Eu e você sabemos muito bem, pelo menos de acordo com nossas projeções feitas sob a luz do luar, o quão gratificante e confortável a realidade com a qual sonhamos pode ser absorvida, de todos os ângulos. Entretanto, nenhum de nós jamais provou o sabor inalterado da realização de um sonho, pois ao passarmos pelos acasos atraentes e venenosos perdemos partes do brilho e naturalidade do pensamento ingênuo que nasce sem pretensão, e toma conta de nosso destino.

Vivenciar uma verdade sem despedidas repentinas, dores sem precedentes e lágrimas sem dono é um plano maravilhoso e assustador ao mesmo tempo; eu não sei como reagir, e sei que você também não. No entanto, se recuarmos agora, quando estamos tão cheios de cicatrizes e quase superando mais uma fase, desonraremos não somente tudo que já executamos, mas também cada vitória e momento eloquente que só serão viáveis quando nos permitirmos tê-los

“Meu amor, estou te esperando, com os olhos fechados e o coração aberto. Meu amor, ainda te amo, ainda te quero, ainda te sonho, com toda a força, que ainda me resta.”

Eu pego o que eu sinto
E o que você sente
E a arte que respiramos
Aperto, acolho, com receio…
Todas as vezes, é tudo que preciso
No final, somos parte do que admiro

O sangue que escorre pela bunda
E o suor que se mistura ao suco do olha
…Janelas vermelhas sem cortinas, no rosto
Telas do amor retraído, eleito pelo pesar

Tu tens minha fome
Minha alegria inexistente
Tu tens minha atitude
Minha juventude decadente
Tu és o que eu tenho
E não sei acessar
Tu és a vida que temos que ter
Aqui ou em qualquer lugar

Até que a morte nos complete
Iremos com o medo de sempre
Até que a chuva nos acaricie
Nos amaremos com os dentes?
Mordidas de meu passado…
Tons de roxo que me deixam louco
Lábios vencidos pela tentação
Protagonistas…
De rituais de compaixão
Do caixão ao chão
Do morro ao esgoto
Da torre do sino ao beco fino
Longe da pedra da vergonha
Se afogando na poça de gente crua

Tu e eu
Eu e tu
Basta!
O mundo nos falsifica
A gente às vezes se rende; fica
O vento entra pela fresta bonita
E a mente de amantes se petrifica

Menos drama, mais progresso
Menos ódio, mais tolerância
Menos nitidez, mais curiosidade
Menos padrões, mais felicidade

Eu e tu
Tu e eu
Basta!


Inspirado no filme “Do Começo ao Fim” (2009)

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