INOCENTE: É tudo que não espera, pois nada conhecemos sobre ele, e quando começamos a nos entrelaçar em seus encantos, ele muda, evoluiu, se torna mais amargo, pois gente grande gosta de sofrer. Amar inocentemente significa não ter uma agenda, nem marcar no caderninho o quão satisfeito seu coração está por você ter a companhia daquela pessoa. Amar assim é, de todos os pontos de vista, um período sagrado e que só acontece uma vez. Sim. Após o primeiro amor, sem espinhos, é preciso aprender a lidar com tais pequenos e pertinentes ingredientes do sentimento. Os próximos episódios são apenas reflexos distorcidos de tudo que recebemos e almejamos na jornada insana que é amar alguém. Por fim, amar sem complicação é ter a oportunidade de complicar o amor, de aprender a domar os ciúmes, apreciar os desejos, moldar as afinidades, conhecer os próprios medos e o que o mundo pode fazer com eles. Assim, na escola emocional da vida, a primeira lição é se entregar e se machucar, pois o melhor dos guerreiros não é aquele que nunca se fere, mas sim o que mesmo tendo ido à mil batalhas, não tem vergonha de mostrar suas marcas.

REPENTINO: Você já sabe o que amar, e algumas das vantagens e desvantagens, entretanto, há um ensinamento que jamais será, nem mesmo remotamente, assimilado: A identificação do amor. Para todas as idades e tipos de amantes o amor é um enigma, e uma enorme parte do mistério está justamente no fato de você não saber, com clareza, se aquele calor interno te consumindo é amor ou não. A diferença mais perceptível entre as gerações é que, com o passar do tempo, as pessoas ficam um tanto menos (des)acautelados na hora de se jogar nas possibilidades de um sentimento, mas isso também varia muito e depende de pessoa para pessoa. Tentar, seja lá como for, instituir um sistema para facilitar o processo é uma tremenda perda de recursos e oportunidades, uma vez que, se for realmente o tão sonhado amor, tentar rotulá-lo só irá atrapalhar a fluidez dos acontecimentos que só ele traz, ou seja, não são repentinos. Diante da dúvida, que não é estranha quando se está apaixonado, o melhor a fazer é analisar sua situação, de onde você vem e a causa de estar aí; se está feliz assim ou se a resposta é um novo amor, se é cedo demais ou… tarde demais? Enfim, você sabe, ou deveria saber, como seu paraquedas está, pois a viagem para cima pode ser maravilhosa, mas a descida não costuma apresentar um lado bom; pelo menos não nas mediações temporais de sua ocorrência.

VORAZ: Mesmo nos intitulando equilibrados em vários planos comportamentais, há um momento em que ele se faz protagonista, do jeito dele… O amor com o qual se aprende a conviver e, de certa forma, manipular para se encaixar em nossa rotina, às vezes, tem mais de uma carta na manga, e mostra sua face incontrolável como uma última tentativa de nos tirar dos trilhos da sensatez. Assim, os índices de burrice aumentam consideravelmente e a condensação das expressões também, fazendo com que todos os movimentos derivados da nossa incapacidade de organizar nossos sentimentos sejam completamente determinados pelo senso de urgência e euforia que toma de conta da gente. A voracidade é real e é ativa, cativante, abrangente e extravagante, até para os mais desatentos, aos quais ela faz questão de dedicar uma boa porção de espetáculos, verbais e visuais, com o intuito de envolvê-los. Os tentáculos de convencimento tornam toda e qualquer ação inconsequente algo vital, ou seja, é como se um lençol fosse estendido sobre a estante onde os troféus das conquistas que nos fazem menos humanos, ou seja, menos propícios ao erro. Talvez soltar as rédeas do amor seja um dos erros mais infelizes.

REJUVENESCEDOR: Nas vielas das desilusões e pancadas gloriosas, um carinho gratuito é o único remédio. Dos mais humildes e abertos ao mais reclusos e exigentes, o amor que rejuvenesce não cresce; ele é jovem e é bonito de se ter. Não há vergonha que persista quando ele aparece, e se o calor não é pouco, um abraço é um corte valioso no coração abalado pela perda de um velho amor; seja ele real, platônico, inocente, voraz ou louco. A volta da aventura não tem linhas retas, o destino é uma caixinha de luzes que dividem a atenção daqueles que ainda têm vontade de querer e ser queridos. Nunca é demais, e pode vir mais de uma vez, pois para quem ainda respira, o amor é sempre o mesmo, com uma roupa, cor, altura e sexo diferente; na verdade, já disse, não importa. Se a tarefa é viver, ter permissão para improvisar é o primeiro dos procedimentos, ou seja, recortar e reutilizar o roteiro pode até ser trapaça, mas é também é semente da coisa pela qual deveríamos nos arriscar, a coisa da qual nos esquecemos quando estamos sem ela: A felicidade.

TARDIO: Muitas vezes ignorada, a filosofia que diz que nunca é tarde demais para amar não deixa de ser menos verídica porque não é disseminada nos agrupamentos de razões para a solidão. O amor, como já mastigamos em tantos focos respeitosos de classificação, é algo exterior e interior, que vai e vem, se transforma e volta atrás. Então, se é para acreditar que algo tão magnífico existe, é melhor estar pronto para engolir todos os seus possíveis, e impossíveis, métodos de aproximação e funcionamento. O coração de quem ama, mesmo com o pé na cova, é diferente do de quem já esqueceu esse sentimento; não só por causa da visão panorâmica da vida, mas também pelo simples, e recorrente, fato de que para ser feliz amando, em um número consistente de casos, basta querer, e não ter medo. O tempo é apenas uma das folhas sobre as quais o amor é escrita, ele é uma figura forte e influente, mas não dita o ponto final do sentimento mais lendário.

ESPECIAL: Apresentador de intensidades diferentes, de acordo com a faixa etária de sua fonte de energia, este é apenas uma distração, uma mutação da realidade. Pouco importa se é proveniente de alguém da mesma raça, se é muito ou estupidamente inconcebível, se é dos dias atuais ou de capítulos em preto e branco; a verdade é que essa loucura misturada com paixão não pode, nem deve, ser entendida. Até os mais intelectuais já provaram o sabor peculiar e viciante de uma admiração diária, alimentada por eventos minúsculos, dona de esforços majestosos e atitudes bobas. Jamais, em contexto algum, a pessoa que leva um amor especial enxerga, durante a imersão, que está agindo como uma criança após ganhar um pirulito; sendo assim, essa ilusão momentânea, que nasce tímida e se torna doentia, funciona como uma reestruturação emocional. Além de se caracterizar por um amor não correspondido conformado, o eixo mítico do sentimento faz com que seu desfecho não traga muitas dores, mas camadas de resistência, que podem ser utilizadas em relacionamentos e objetivos com mais chances de se solidificarem.

PRÓPRIO: Há quem diga que ele é apenas o resultado da falta do “verdadeiro”, mas também há quem defenda suas repercussões agradáveis e caminhos irreproduzíveis. Independentemente do polo ao qual nos referimos, o amor próprio vai muito mais longe do que podemos cogitar, pois ele não é como o resto de seus irmãos; não apresenta uma sequência de acontecimentos padronizados e nem tem prazo de validade indicado pelo ponto em que o indivíduo se situa na estrada da vida. Ele não acaba, apenas muda ao longo de nossos passos, se adapta às nossas vulnerabilidades e impulsiona o surgimento de novos meios de obtenção de tons de amor. Bastante ligado à sua forma original, em todos os sentidos, ele quase sempre escolhe as curvas que têm consequências menos radicais como preço. Eu me amo do meu jeito, e sempre me amarei assim, ora menos de bem comigo, ora mais disposto a me dar mais um voto de confidência. Embora polêmica por não transitar impecavelmente pelas diversas configurações históricas, culturais e, principalmente, pessoais, a identidade desse setor amoroso é uma pedra indispensável no sapato.

VAZIO: Não é que ele esteja cada vez mais comum, o verdadeiro fator divergente é a nitidez com a qual esse tipo de afeto se manifesta. Além do tempo e das circunstâncias, amar só por amar é um ato sábio, imprudente e irresponsável. Ontem e sempre, mergulhar nessa atmosfera ameaçadora é quase um pedido de sofrimento explícito, pois você, enquanto amante oco, está no centro do alvo de diversos malefícios do amor, só aguardando ser atingido fatalmente, e sem o menor aviso, cair como qualquer pessoa nesse jogo cai. Apesar de bastante libertador e maleável, o vazio de onde esse sentimento tira grande parte de sua exuberância é também o seu ponto mais fraco, já que, na maioria dos casos, quanto mais espaço e possibilidade, mais deslizes são cometidos, pois os riscos esmaecem quando são postos frente a frente com a imensidão da junção de todas as outras milhares de sensações. Estar na beira da incondicionalidade é uma experiência curiosa, que mistura as doçuras da independência emocional e o peso da fidelidade irrefutável. Logo, o amor vazio, em sua excelência, é apenas uma fuga cheia de aberturas, pronta para ser violada, contaminada.

ETERNO: Este, ao contrário do que muitos pensam, não se trata de perfeição ou exaustão, muito menos constatação. Amar eternamente não é uma realidade, como os outros tipos de amor, mas sim uma consideração mútua, que se carrega até a morte do indivíduo que a hospeda. Para esse ser, o amor não está acima de tudo, mas em tudo; tudo que une e separa os companheiros. A duplicidade do sentimento cai por terra a partir do momento que a claridade do seu único significado correto é descoberto, ou seja, todos os conflitos antes gerados tão facilmente, oriundos de razões rasas e desenvolvidas sob uma perspectiva limitada pela pressa são rapidamente descartados, colocados no seu devido lugar, de onde só saíram porque a imaturidade emocional era a antiga regente. Entre tantos níveis de autoconhecimento e aprendizagens forçadas e naturais, nós conseguimos nos encontrar em algo ou alguém, e simplesmente nos aceitar como somos. Sem a velha mania de procurar defeitos e a necessidade constante de apontar motivos para estar insatisfeito, um dia, quem sabe, você terá essa sensação no seu colo, e com ela, todas as paciências possíveis.

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