Com a passagem das páginas e o acúmulo de decepções inegáveis, percebi que a vida não deve se tratar do quanto percorremos, mas de onde somos fortes o suficiente para assumirmos nossas fraquezas e do caminho que não só traçamos, mas escolhemos protagonizar, não pelos outros, mas por nós mesmos. A gente aprende, até quando não planeja, quando ainda vê a subjetividade e a reflexão como vilãs, do jeito mais mágico e fluido, ou em meio a quedas inesquecíveis, a não esperar que os encaixes das peças do chamado “destino” sejam perfeitos.

Às vezes, na maioria das vezes, para crescer, é preciso regressar, revisitar, rever, repensar sob um olhar mais abatido e sábio, calejado pelos frutos não tão doces da persistência que quase sempre parece insanidade, inviabilidade extrema, inabalável. Tudo isso porque vivemos em um mundo que é uma ilusão cruel, adorador de histórias de glórias incontestáveis, de sucessos inspiradores e exorbitantes. Assim, fica ainda mais difícil, do que inicialmente já é, acreditar em nós mesmos, em nossa reles realidade fora dos holofotes das considerações saturadas e transmitidas à exaustão em todos os meios comunicativos. Nossos sonhos, quando comparados aos dos outros, aos únicos que ganham manchetes e montagem de neon, parecem ser impossíveis de alcançarem a realidade, pois estão longe de tudo que consumimos, ou escolhemos consumir, aonde quer que vamos.

Nos frustramos, sempre, porque idealizamos uma competição entre nós, e não para com conosco, quem somos por dentro, muito antes do brilho do celular de última geração ou do aumento de salário em poucos meses de atuação. Almejamos títulos e felicidades que podem ser de qualquer pessoa, logo, não pertencem a ninguém, não realmente, não como a plenitude da satisfação deveria ser. Consequentemente, nunca estamos de bem com nós mesmos, pois, constantemente, nos comparamos a quem está a frente e menosprezamos o esforço, por maior que ele seja, de quem vem atrás.

Nos vemos cada vez mais pequenos diante da trajetória magnânima de quem recebe chuva de aplausos e repudiamos tudo que não pode ser fotografado e compartilhado, exposto em muros de tijolos e pixels, invejado e curtido, reverenciado e referenciado. Quanto mais individual, pior, pois o mundo não vê lucro naquilo que não pode ser tomado por qualquer um que chegue ao topo.

Com as perdas, só com elas, é que a visão geral dos nossos comportamentos se torna menos absolutista e embasada estritamente pelo desejo incessante de possuir certificados descartáveis. Só quando não valemos um sorriso de plástico, um abraço sem calor, uma corrente de adjetivos genéricos é que nos damos conta de que a única coisa que sempre fará sentido e jamais poderá ser completamente descrita é a autoanálise que precisamos fazer sem querer seu fim antes do nosso, visando não o nosso brilho que amanhã pode ser de qualquer um, mas a verdade maleável da felicidade, não da felicidade que está em alta, nem que custa mais caro ou que é o símbolo mais popular nas interações de cada geração.

Temos que considerar a possibilidade do erro, do desfalque, da inconsistência do domínio dos nossos talentos, até porque não somos feitos de precisão monumental, de exatidão universal, então, nada mais justo, nada mais real, para com a nossa vida e o que absorvemos ao longo dela, do que construirmos passos que nos deem orgulho hoje e no futuro, independentemente de quem os testemunhe ou os aprecie. Se eles forem o bastante para a nossa essência e não machucarem ninguém, a sua manutenção deve ser o ideal mais potente, já que exibir vitórias óbvias é como amar fogos de artificio; eles são episódios, surreais, rápidos e exclusivos de um momento breve demais, raízes de um êxtase que, se procurado no cotidiano, só abrirá portas mórbidas de pessimismos duradouros e negligenciados por quem seguro o poder infame da supervalorização dos status transferíveis sem o mínimo de complicação. Acima de tudo, temos que amar aquilo que nos fortalece diante de nós mesmos mais do que aquilo que nos torna atraentes para o resto do mundo. A beleza tida em termos sem mistério é apenas beleza; mas aquela que vem aos poucos e nunca chega em sua totalidade é a resposta sem chafarizes incandescentes, o objetivo mais alheio e mais nosso, a beleza.

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