Este “conto” poderia não existir, mas autores são maravilhosos em poucas considerações, então hei de tirar proveito da teimosia que veem perdoando ultimamente; não que eu fosse me privar do delírio da escrita só para agradar alguém, a menos que esse alguém fosse eu mesmo, e olhe lá… Então lá se vai o primeiro ponto, e com ele, rima de começo, que talvez seja a mesma do fim, teremos que esperar, ou melhor, ler, para ver… Lembrando que não prometo nada. Gertrudes era florista, tinha lojinha à beira da pista, “BR alguma coisa aleatória”, tão cheia de grandes histórias: Um namorado de primeira viagem, um marido com imensa bagagem; crianças facilmente fascinadas, jovens constantemente nada impressionadas; padres a caminho de missas de fim de verão; freiras indecisas até depois da segunda tentativa de devolução. Mas era paciente, aquela senhora na casa dos cinquenta, cabelos curtos, loiros e brancos, óculos esverdeados como seus olhos, mãos ágeis e cuidadosas no manuseio dos buquês personalizados e embrulhos selados com um sorriso minimalista e honesto até nos dias em que fora assaltada, até a última vez em que a vi, mais de quinze vezes. Lá, da calçada quadricula, sob o toldo amarelado, ora no ritmo da vassoura de palha, ora no acalanto do assovio do sobrinho que vinha para consertar a conexão de Internet, ela se sentia a mulher mais completa, mesmo menos completa do que há cinco anos, quando seu marido sofreu um enfarte fulminante enquanto se balançava na rede de casa, duas semanas depois de oficializar a aposentadoria. Ele era produtor de eventos, mas não a conheceu em um encontro de negócios, foi justamente no casamento de sua irmã. Jorge ainda era ajudante de pedreiro e Gertrudes, babá. Três filhos e duas filhas e vinte e três anos de casamento depois, ainda estão vívidos na memória da matriarca e nos pulos afoitos da próxima geração. Jorge Jr., Jorginho, tem dois anos de idade, é o neto caçula, filho da filha caçula. É sábado, passei na Pétala da Estrada enquanto voltava da minha última consulta psicológica do mês. Sentei, dei umas risadas, vi fotos do pequeno no celular também pequeno. Mal conheço aquela senhora além de seus relatos amistosos, mas sua gentileza me abraça como nenhuma outra… Vai ver é verdadeira. É noite, entreguei as orquídeas brancas a minha mãe, jantei com ela pela primeira vez este mês, cheguei agora em casa, quase onze horas. Banho, solteiro na cama de casal, fim. Foi só isso, sem clímax, sem grandes lições. Às vezes só basta parar e apreciar a vida, o valor que algumas pessoas dão a ela enquanto outros subestimam o poder de suas curvas ordinárias. Para uns, o que acabou de ser dito é uma lição, uma contradição em relação ao que foi dito ainda antes. Calma, não há avaliação, nem competição, apenas apreciação!

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