Lacre, laço, veia, punho, prensa, braço, caixa, critério, mormaço… Entendo o teu medo, a supressão do desejo, o instinto amordaçado. Então, só desta vez, uma última inconsistência, um surto de coragem, um salto de confiança, uma demonstração de fé, para muitos, pura loucura. É preciso tentar. Dê-me a oportunidade de te ensinar a sair daí, dessas cortinas que um dia preencheram meu intestino, essas palavras sem voz que dizem tudo que não te pertence realmente, além dos sorrisos condescendentes de aprovação opressora. Sob o céu noturno, nublado, deste começo de verão atordoado por um fim de ano nada fácil, deixe-me entrar, ser mais do que espectador, mais do que herói distante na página visitada dezenas de vezes antes mesmo da meia-noite. Deixe-me ver, tocar, sentir a profundidade da tua dor; mergulhar nela como se fosse qualquer outro buraco infinito até não ser. Considere-me irmão, abre teu coração, em mim, intimidade de emblemática catártica, nem um pouco pouca razão. Se perdoe. Germine o teu merecimento, resgate as forças um dia descartadas, jogadas para debaixo das bolas de papéis variados, reciclados, desmanchados, chorados, humilhados, encharcados com ideias incompreendidas, anônimas, grandiosas demais para um único momento. Mas só precisamos de uma noção, um sentimento, uma vontade de se entregar a algo jamais mencionado. Lembra do crer para ver? Há subjetividade incandescente aqui, não a tema, não como faz com o resto, tema com respeito, não sem nenhuma outra opção. Ela não é, e é, mágica de um valor sem preço, um brilho sem reflexo, um tremor sem balanço, contradição, de novo, pela primeira vez. Corte limites, corte além da linha pontilhada, dos pontos em vermelho, das advertências descabidas, das ameaças lendárias. Respire. Sopre os monstros e seus chifres. Agora, sinta-se. Viva-se. Enfim, revire-se. Mude de posição, de aproximação, de imposição. Imponha-se. Só você, nada menos. Seja mais do que um objeto, mais do que um ícone aprisionado por faixas conservadoras de males ultrapassados. E como estão enferrujados! Nunca mais volte, não há como. Se você vir, comigo, não terá como voltar, nem que implore, nem que se sinta pequeno demais para se amar, a princípio, nem que o lado de fora pareça inadequado para alguém como você. Olhe para tudo, absorva o que for seu no instante e o que vier depois e o que se atrelar aos pesadelos de ontem e o que vibrar como sonho de amanhã. Mas antes de qualquer passo, rompa o lacre, desfaça o laço, desprenda a veia, liberte o punho, alivie a prensa, levante o braço, transcenda a caixa, reformule o critério, desafie o mormaço.

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