Se tivesse que apontar uma única fonte para minhas inquietações, certamente não obteria sucesso, nunca. Gosto de ir em várias direções e averiguar os mais diferentes pontos de observação, já errei muito ao não disponibilizar minha mente e coração para as possibilidades das considerações provisórias. Não sei de onde tantas questões vêm, mas acho que uma porção delas é oriunda do fato de eu não me contentar com o mundo em que nasci e cresci; já a outra é mais fácil de identificar, ela é o extrato da vida que não necessariamente pode se tornar realidade, mas sempre tem um espaço especial dentro de mim.

Ao longo de quase duas décadas de existência, pude assimilar meus sonhos e testemunhei o amadurecimento e transformação dos mesmos, ora para patamares mais elevados, ora para a zona de conformidade. A verdade mais imutável de todas se localiza na minha sede por novas dúvidas e minha insatisfação com as injustiças que me rodeiam. A estrela, neste caso, é o que eu quero ser. A caixa, em todos os momentos, é o que me impede de prosseguir, segundo minhas concepções.

Até pouco tempo atrás, quando me pegava sonhando alto, como sempre, cultivava um sentimento nada lucrativo e extremamente corrosivo em relação ao ambiente em que me constituí: O rancor. Jamais separei um pouco da minha esperança para dedicá-la ao lugar que sempre vi com olhos de desconfiança e intolerância. Logo eu, que sempre questionei a falta de mentes abertas neste lugar, estava preso numa esfera de preconceito camuflado, e nesse processo nojento, ao fim de toda e qualquer cogitação, não hesitava em descartar as opções que vinham das bocas que só conhecem um lado de tudo. Logo eu, que acredito na melhoria das relações e no compartilhamento de diversos conteúdos, estava sendo mais uma peça no espetáculo horrendo que a exclusão e o regresso proporcionam.

A curva mais relevante e brusca na minha maneira de pensar veio quando, através de um baque no meu trajeto até o almejado sucesso, percebi que a beleza e o brilho da estrela não consistem na matéria que a compõe, mas sim no esforço e amor empregados em sua construção e manutenção. Assim, um pouco tarde demais, consegui identificar a verdadeira plenitude do ato de sonhar e desejar um mundo menos hostil. Além de me redimir ao tentar escrever certo sobre os rabiscos intransigentes de antes. Estou pronto para colocar a mão na massa e realmente estabelecer um elo não somente pacífico com minhas raízes, mas também duradouro e frutífero; para que meus semelhantes e suas futuras versões saibam, ainda mais, o valor e a importância da honestidade para consigo mesmo e o berço de onde saímos, a magia da empatia. Ontem pode ter sido uma tempestade perfeita, colaboradora das atitudes vergonhosas, mas hoje, mesmo entre os escombros, com paciência, o renascimento tem chance de vingar.


Confesso que, a princípio, logo nos primeiros momentos após o clareamento de meus julgamentos, ao ter noção dos erros que havia cometido, pensei em tudo, menos em me perdoar e dar-me mais uma razão para continuar vibrando ao ser o protagonista do surgimento de novos desejos. O medo da rejeição veio como as ideias mais brilhantes: De repente e com força, cheio de ramificações e se intensificando segundo a segundo. Eu, naquele estado frágil, quase fui até o fim com o plano mais irreversível de todos: O fim da linha premeditado. Contudo, em um dos mais puros e sinceros encontros com minha mãe, deixei cair uma imensa parte do peso que me consumia, e ela, tão maravilhosa, conseguiu me guiar até o outro lado da ponte, onde um futuro não tão glorioso me esperava.

Nada se compara ao sabor de saber que o que está em sua frente é realmente o que você merece. Nunca havia sentido tal felicidade, e ao chegar no ponto decisivo da lição interminável, soube que não sou tão insubstituível quanto imaginei, e que isso é normal, eu sou [a]normal. Errei porque não sou melhor que ninguém, e errarei novamente, mas da próxima vez não será um erro inocente, não serei mais um instrumento da vaidade e ganância. No próximo tropeço, estarei na categoria dos guerreiros, aflitos e suados, que vão à luta sem saber como sobreviverão, mas que em ocasião alguma, largam a bolsa que transborda frases tidas estúpidas, otimistas demais e surreais.

Seja na lama da descoberta, ou no ouro da humildade, sou mais eu. Não tenho medo de me mostrar, nem de admitir minhas linhas tortas. Por fim, sou aquele que está cansado, mas ainda tem fôlego para adicionar algumas centenas de objetivos e aprendizados à lista. Sou aquele que retirou o desejo de morrer aos 50 anos, rico, sozinho, e independente. Sou um menino de novo, desta vez, sem o receio de abrir a boca, sem o ódio oculto, sem a repulsa gratuita. Sou mais do que já presenciei, sonhei, alucinei, confessei, criei e exterminei. Sou forasteiro, namorado de mundos, viciado no que me alegra, combatente da obviedade que me chama, sou uma porta escancarada para os ventos que se renovam.

A estrela está na caixa
E eu na janela
Esperando você passar
Vendo a vida passar
Sou eu quem grita
Quem chora sem querer
Sou eu quem se arrepende
Por não ter ido te ver

Nu, pelado, como vim ao mundo
Nunca estou, nunca sou
Tenho vida e tenho voz
Tenho a paz que me conduz
Finalmente, simplesmente
Tenho sede de companhia e luz

Para ser grande
Não preciso ser grande
Não por fora
Não nos números
Nem nos termos e ternos
Para ser grande
Preciso ser grande
Sem saber que sou
Sem dizer que sou
Sem ser só por ser

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