E lá vou eu, de novo, sem meu amor, com minhas dúvidas, minhas dívidas. E aqui estou, como nunca, me considerando, em mim confiando, a mim, pagando. Insisto nesse rito, nesse mito, nesse vício, nessas provas para os outros de que mereço ser, para eles, sob suas lentes ardentes, entre suas grades latentes, como alguém além de um cisco, um traço que não é puro risco no meio de outro campo desmatado de esperança autêntica agora só chamuscada. Deixo que eles me digam, o que sou e o que deixo de ser, o que jamais serei porque… Por quê? É meio sobrenatural, mas já se tornou natural e ninguém questiona, eu não indago, só me calo. Quem sou eu para me manifestar, afinal? Apenas eu, sem instruções até que vejam minha desorientação, minha mente oscilante rodopiando em busca de alguma ordem majestosa vinda de pessoas que nunca provaram da sopa de vento nas madrugadas de inverno sob lençóis de papelão e vômitos da intoxicação do mês. Eu queria provar para mim. Queria que fosse simples assim, como escrevo aqui, com o carvão de meus dedos sob a tela do meu estômago, no ritmo das lombrigas fieis a minha corrosão poética fétida. Eu queria que o brilho do meu olhar refletido na poça de piche me comovesse tão imediatamente quanto as palavras imponentes daqueles poucos donos de tantos. Mas lá vou eu, menos meu, quase nada ao ver de quem tem tudo, tudo que importa, para quem tem, e para quem só anseia.

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