Eu ponho a ponta do dedo, da faca, de todas as forças que me restam para desfocar o meu olhar de mim e te amaldiçoar com a percepção dos nossos pecados. Não deveria haver uns maiores do que outros, mas eu faço questão de listar o que você já fez e comparar cada item com meus atos de quase uma década atrás. Você se sente mais mal e eu me sinto menos, menos eu enquanto me banho no teu remorso, menos responsável pelas falhas que têm meu nome encravado nelas. Quando você passa na rua, quando você posta ou compartilha algo, quando ri muito alto, quando não cumprimenta tão alegremente. Eu tenho, sempre, na consciência, uma caneta impiedosa anotando tudo que me parece motivo para continuar enaltecendo os teus desvios, e enquanto isso, estou eu, no maior dos meus, tentando fugir dos meus, empilhando-os, adiando nossos encontros, procrastinando da maneira mais sorrateira e hipócrita e deliciosa e pecaminosa que consegui lapidar até hoje. Eu ponho o punho sobre a mesa, abruptamente, e bato uma, duas, três vezes sem quebrar o contato visual, sem te deixar escapar. E então me vejo pela primeira vez desde a primeira negação, dentro do teu olhar. Você já sabe o que faz e assume sem pesar, isso me machuca mais do que eu fui capaz de atingir. Enfim, não tenho onde me esconder, é só eu e eu, meus pecados emergem como brotos deformados, mas vívidos, relevantes, existentes. Sou eu quem me julga, como jamais fui capaz de te humilhar, porque eu sou réu também, o único. Não há fila de acusados, não há comparação de atos, não há cúmplices, nem auxílios extraordinários, nem orgulho que me deixe dormente, nem pena do subconsciente, de mim mesmo, quem nunca deixei de sentir o dedo, a faca, as forças entrarem pelas minhas costas. Diante de mim, em ti, há apenas o que eu tanto queria evitar, o que sempre esteve lá, esperando por mim: o que eu sou.

Anúncios