Jovens e expressivas, figuras fortes e femininas, chegando no mercado distorcendo o padrão da ditadura da beleza e sua glamourização.

O tempo do pop que se vangloria em cima de coisa fúteis como festas, garotos e bebidas parece estar sendo posto de lado por artistas como Alessia Cara e Daya, que têm algo a mais para dizer, uma originalidade a defender, mesmo que muitas vezes a honestidade e o valor reinem apenas nas letras e esbarrem nos mesmos instrumentais apelativos de sempre.

Embora isso faça com que as músicas vão para o topo e apenas suas melodias sejam ouvidas e suas letras sejam ignoradas no frenesi proporcionado pelo ritmo envolvente, a presença de iniciantes como elas prova que há esperança, uma curva na maneira como as mulheres se colocam na indústria e como os artistas, em geral, estão mais abertos para falar menos perfeições inatingíveis e festanças intermináveis e utópicas em suas letras que daqui a um ou dois anos são apenas poeira no chão das rádios.

Tanto o “Know-It-Know” (2015), da Alessia; quanto o “Sit Still, Look Pretty” (2016), da Daya já começam fazendo afronta bonito em seus títulos, ambos irônicos. Um remete ao fato de propagarmos a ideia de que sabemos ou precisamos saber de tudo sobre nós mesmos, aquela massa incandescente de autossuficiência saturada que é a estrela vibrante de muitas músicas de sucesso. Enquanto o segundo se vira estritamente para o comportamento tradicional esperado das mulheres, a contenção, a passividade, a transcendência imaculada de uma postura dócil e frágil. As duas começam a ser inteligentes logo daí, dos nomes de seus trabalhos de estreia, das palavras que ficam estampadas em todas as plataformas nas quais as músicas estão disponíveis.

O mais interessante, talvez, é que toda a superação, o otimismo e o empoderamento apresentado por elas, mesmo numa fase tão prematura de suas jornadas, não são mensagens vazias e repetitivas, pois abordam uma área difícil, específica, justamente da juventude, e a corroboram liricamente de maneira perspicaz, com metáforas minimalistas, rimas rápidas e temas que vão desde o autodescobrimento até a exploração do mundo sexual e o posicionamento diante da cultura dos relacionamentos atuais.

Ainda que elas sejam novatas, a nostalgia presente em algumas de suas composições não perde para as de músicos mais experientes, principalmente porque elas utilizam um intervalo de tempo cru, curto, para materializar musicalmente seus picos de indecisão e a falta constante de respostas para os incômodos que a vida lança em seu caminho.

Em “Seventeen”, Alessia fala de dor, de refúgio debaixo de cobertores, de ânsia por dias mais leves e dilemas mais fáceis de serem encarados, tudo através de uma música ágil, cheia de batidas contagiantes e apelos para sobreposições dos vocais da cantora. Contudo, o sentimentalismo e o peso das palavras ecoam dignamente no refrão, quando ela solta seu agudo e sua verdade mais nua.

Numa linguagem mais áspera, mas não menos válida, Daya vem com “Hide Away”, mais provocativa e com comparações que alfinetam o comportamento louvado e tido como ideal. A base das interações sexuais e afetivas atualmente, principalmente entre as faixas etárias menos vividas, é a ideia de que o prazer vem antes de tudo, inclusive da cumplicidade. Muitos usam o sexo como válvula de escape, para tentar preencher alguma lacuna em suas vidas, mas na realidade, o sexo não é pilar, é complemento. Na música, entre batidas ofegantes e vocais pontiagudos, a cantora expressa sua insatisfação na procura por um parceiro que queira mais do que o óbvio, o descartável, o que pode ser obtido em qualquer corpo que esteja na praça apenas pelo deleite carnal e episódico.

Dando continuidade à sua identidade sintetizada, Daya se impõe independente e confiante em sua beleza interior em “Sit Still, Look Pretty”, faixa-título que não é muito robusta em letra, mas se mantém fiel à personalidade frenética da artista, trazendo toques-chiclete impecáveis, nada enjoativos e deveras coerentes. Já Alessia esbanja a amplitude de suas letras, sua poesia mais suave, mas não menos relevante do que os socos de Daya. Em “Scars to Your Beautiful”, em vez de mostrar a dádiva de se amar, ela destaca a importância do ato e as fases obscuras pelas quais quem não o faz passa. As veias R&B da cantora pedem uma interpretação mais melancólica, enquanto as rotas eletrônicas da outra exigem versos pequenos, de periodicidade também menores do que o normal. Contudo, apesar dos contrastes, o essencial é perceber como as duas músicas e suas produtoras adotam discussões raramente postas no topo das paradas. Mesmo mais animada e majoritariamente fora das dúvidas que os buracos na autoconfiança geram, Daya implementa elementos nada fofos em suas letras, o que revela sua coragem acima do padrão postiço utilizado apenas para ofender quem, no contexto da música, fica por baixo.

Mas nem tudo é primor, também há picos de redundância, como nos versos impessoais e distantes demais de “We Are”, de Daya, que não elucidam nenhuma mensagem minimamente considerável em relação ao resto do álbum. A faixa em questão parece forçada, poderia ter sido deixada de fora, principalmente por ser composta por certos eixos arrogantes que não servem como condutores críveis ou respeitáveis. Além disso, a estratégia melódica utilizada aqui não é novidade, nem tem poder envolvente suficiente para suplantar a mediocridade da letra.

Enquanto isso, Alessia falha em “Outlaws”, porque eleva a barra demais em suas outras composições e aqui entrega apenas um monte de versos vazios, que mal sustentam um o outro e não sedimentam uma mensagem memorável. A melodia clássica dá uma certa força para a assimilação puramente superficial da obra, mas não é um complemento condizente para a letra que, na verdade, diz muito pouco sobre uma segurança na companhia de alguém especial e um tal auxílio nas constantes batalhas contra os indivíduos que sempre têm algo negativo para acrescentar à equação da vida.

Apesar das eventuais derrapagens, ambos CDs são mais do que felizes no que se propõem a fazer, principalmente por virem de garotas que não fortificam os padrões estéticos nem na aparência, nem nas letras. Elas falam suas verdades, umas mais enviesadas com conscientização, outras mais fundamentadas pela voracidade de versos ligeiramente cruéis, mas as duas dão orgulho, pois mostram que a transformação é geral, que a pluralidade das vozes, dos problemas, dos horrores e das realidades estão se espalhando por plataformas e artes que antes eram exemplos exclusivos de ícones excludentes da sociedade.

Quanto mais a pessoa normal, de estria na barriga e depressão na adolescência for representada e defendida, mas chances teremos de discutir sobre o preconceito e a violência, verbal e física, sem ter que ficar fazendo rodeios que nem deveriam existir mais. Quanto mais a verdade exprimida for a verdade sentida, mais teremos a certeza de que estamos no caminho certo, mesmo ele não sendo o mais bonito segundo os quesitos tradicionais, mesmo ele não sendo o mais fluido e fácil de entender e controlar segundo as condutas usuais.

O ser humano é complexo, é único em seus demônios e maravilhas, por isso a arte deve ser democrática, deve ser sincera, deve ser o que somos, o que nem sabemos que somos, o que não entendemos muito bem e o que às vezes temos vergonha de assumir que somos.

Alessia Cara e Daya, parabéns!

Anúncios