Sei que esperar que você saiba pelo que passo é pedir demais, afinal, eu não me abro. Pelo contrário, eu estar fechado é basicamente o primórdio do problema, e nem eu sei o porquê nítido de me comportar assim, às vezes, por mais tempo do que eu possa acreditar. Sei que a dor que eu te causo é tão intensa quanto a que eu percebo, talvez maior, pois dói em mim também, te ver tentar chegar mais perto, arrancar um sorriso sincero de mim, uma saudação genérica que seja.

O pior é que, nesses momentos, nem eu me suporto, porque não me entendo, não consigo apontar o que me faz me sentir tão mal para com tudo ao meu redor. As páginas do manual de instruções do celular novo, a demora da Internet que nunca melhora, o calor infernal que todo dia bate ponto. Tudo isso, há vezes, em que não são nada além de meros detalhes da rotina, uns mais especiais, cruciais do que outros. Mas há vezes em que, eu, sem mais nem menos, apago, viro poço obscuro de reflexos lentos e indisposições transcendentes. Nem meu amor me resgata, nem o pior dos eventos me abala, eu me vejo, de dentro de mim, preso nessa inconsistência atormentadora.

Ouço sussurros de lamentação e testemunho, de relance, olhares de desengano, tudo porque, mesmo tentando, não consigo voltar ao normal, não enquanto estou sob a influência dessa apatia estarrecedora. O mundo vira uma grande tela escrava da escala sépia, um mar de uma indiferença que eu jamais escolhi sentir, mas incorporo mesmo assim, sem nenhuma alternativa. Não há botão de autodestruição, nem válvula de evacuação, de emergência, muito menos manivela de reprogramação braçal. Naqueles instantes, que podem ser horas, e uma vez, dois dias, eu não me reconheço, não tenho nenhum tipo de prazer, não consigo expressar nenhum nível de compaixão. Sofro eu, sofrem vocês, sofremos, sabemos.

Me recordo, agora, vagamente, de quando tudo começou, no estágio mais ávido da adolescência, no ápice dos pré-conceitos e das perguntas sem resposta, nas artes sem precedentes e ódios instantâneos. Me lembro de como eu usava a solidão para aliviar a dor que o mundo me causava, as alfinetadas com as quais ele me recebia toda vez que eu tentava ser tão normal quanto os outros da minha idade. O meu corpo, os meus gostos, a minha caligrafia, minha voz, minha sensibilidade. Tudo que eu tinha e que era original também era fonte de diversão para uns, pena para outros, toneladas de angústia para mim.

Como jamais soube o que fazer, me libertei das tentativas de me encaixar, sempre que pude, me entreguei ao travesseiro, aos cadernos de desenho, aos pratos de comida, ao meu quarto, a mim.

Algumas ironias são cruéis. Eu nunca tive problemas para aconselhar a resolução de incógnitas alheias ou ajudar diretamente na extinção delas. Mas quando se tratou de mim, como nem eu mesmo entendia o que estava acontecendo, apenas sobrevivi suplantado por toda e qualquer distração que estava ao meu alcance, fosse ela material ou sentimental.

Me enganei por anos e acabei me acostumando com a dimensão que construí especificamente para não ter que lidar com os horrores que ainda me esperam lá fora. É obvio que tive que fazer algumas adaptações, aposentar alguns abrigos e inaugurar outros, buscar novos vícios para saciar a oscilação dos desesperos. Os amigos continuaram platônicos e os amores apenas como delírios de lençóis molhados. Ao não defender quem eu era lá, na flor da puberdade, acabei perdendo-o de vista, nem sei por onde começaria a procurá-lo se decidisse embarcar em tal missão.

Epifania: Não há mais esconderijos para tecer, desvios para escrever, desculpas para fundamentar. Agora sou eu quem planta minha cova, sou eu quem magoa, sou eu quem não tem o controle das próprias atitudes. Meus lapsos de silêncio cortante e rigidez alienígena não estão com os dias contados, afinal, são uma nova profundidade da minha negação da realidade. Você não sabe o que há comigo e eu não sei como fazer justiça por mim. O universo finalmente quer me conhecer, o verdadeiro eu, não essa máscara sofisticada de talentos hipnotizantes; ele quer me ver nu, cru, como eu nunca me permiti me ver. Meu veneno é minha ilusão, minha percepção autossuficiente de mim mesmo. O ser humano não se basta, não por tanto tempo, sob tantas circunstâncias diferentes, entre tantos baques e ascensões. O ser humano nunca está acima de sua subjetividade, eu só estou, porque, estou só, enfim, não sou eu quem vive minha vida, mas alguém que eu vomitei para ser mais imune, ou seja, mais forte do que eu acredito que jamais poderia ser. Perdão por pedir perdão mais uma vez, prometo que não será a última, pois enquanto eu não me valorizar pelo menos, mais do que nunca… não sei.

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