No seu segundo álbum, AlunaGeorge se distancia do estilo R&B mesclado com batidas abafadas que os colocava em um espaço todo especial no cenário atual para adentrar uma interpretação barulhenta, corriqueira e saturada de instrumentais digitais que dominam o topo das paradas e representam o monopólio da falta de diversidade. Contudo, o som mais despojado e áspero é bem refrescante, pois, em combinação com a voz da Aluna e a destreza do George na hora de produzir cada faixa, é bem difícil não sair algo minimamente agradável. O maior desfalque, talvez, esteja na relevância das letras, na explosão criativa, ou nos titubeios dela, que funcionava como o terceiro pilar (depois do vocal e do instrumental) do CD de estreia da dupla inglesa.

“Full Swing”, faixa de abertura, é a parceria mais fraca de todo o trabalho, pois não chega nem perto de obter êxito na missão de ser tão memorável liricamente quanto faixas veteranas como “You Know You Like It” e “Just a Touch”. Aqui, a engenhosidade e cumplicidade entre os versos parecem não terem sido vistas como prioridade, assim, a correlação entre os segmentos da letra é simplesmente inexistente. A contribuição de Pell para a música é mais uma prova de que o foco nela, assim como na faixa seguinte, “My Blood”, foi meramente ter versos que se pareçam e que rimem, que soem descartáveis o suficiente para ficarem na memória e não requererem nenhum tipo de interpretação que vá além do óbvio.

Hold up for your count
Let go for the dance
Touch me like that Fendi
Let’s get lost inside a trance
Step into my office
First lesson on me
Show a few moves that you just can’t teach
Give you new highs that you just can’t reach
So intense that you just can’t speak
I’ve been a gentleman

Já como as parceiras mais intrigantes, temos “I Mean What I Mean” e “I’m in Control”, ambas traduções interessantíssimas da autoestima elevada que Aluna esbanja desde sempre. Nas duas, o tema sexual é utilizado como viés primordial para tratar da presença e força feminina nas decisões de sua vida.

Na primeira, entre as batidas subterrâneas e as ascensões orgânicas, a vocalista tem seu talento menos recortado e a mensagem é sobre exigir o mínimo que uma pessoa pode esperar da outra em um relacionamento: a honestidade e o respeito. Neste caso, o refrão tem os versos mais banais, mas eles não pecam tanto quanto os das primeiras canções aqui discutidas e formam uma linha de pensamento coesa, mesmo que rasa e estritamente voltada para o entretenimento, mesmo que seja um tapete para um tema muito maior: o abuso de poder. Já na segunda estrela desse parágrafo, a rusticidade de Popcaan nos conduz por uma área mais ancestral da música, aderindo cultura e densidade discrepantes que só enriquecem a produção da obra, que traz em sua essência o reggae misturado a um frenesi primoroso construído pela metade instrumental da dupla. Neste caso, o tema é a imposição de protagonismo feminino, o espaço e o autocontrole que a mulher merece e como ela, também, em certos momentos, não só pode, mas deve estar no controle da jornada vivida a dois. Mais uma vez, o destaque lírico fica para as estrofes iniciais, que provam que é possível enxertar a perspicácia e a atratividade.

Por um lado ainda mais nostálgico e saudosista, daquilo que é de qualidade no seu nível mais inegável, as faixas que mais se aproximam da integração genuína entre o romantismo ácido e psicodélico que Aluna e George apresentaram no “Body Music” (2013) são mais dois pontos altos desse “I Remember” (2016).

A faixa-título é contagiante, com letra que impacta, com a falta ideal de edição na voz para que possamos absorver a suavidade estonteante e estupidamente doce que não encontramos em nenhum outro lugar a não ser que apelemos para recursos extraordinários, alheios à naturalidade que perfura nos ângulos mais emotivos do ser humano.

Na mesma linha de execução, “Mediator” vem logo ao lado. Uma balada que nos lembra que AlunaGeorge é muito mais excitante enquanto minimalista, quando são justos com os elementos da vez, quando fazem um trabalho de desenvolvimento que não precisa de pressa para conquistar nossa atenção, já que a complexidade aqui é deduzida aos poucos e não induzida imaturamente. A autoconfiança extravasa novamente, e com ela, a voracidade cheia de sutileza que deixa nosso julgamento ambíguo e delicioso ao mesmo tempo, tudo sem a expressão emocional forjada, forçada, fingida com um único mesquinho objetivo: causar alvoroço e excitação que logo se dissipam, que após cinco reproduções já não oferecem mais nenhuma camada a ser esmiuçada.

“Not Above Love” é uma das surpresas mais arrasadoras dessa nova vertente, menos macia e mais antenada na pluralidade sem vergonha dos instrumentais. Ao pedir trombones emprestados do jazz e blues, Aluna chega mais confiante, mais mulher, mais madura do que nunca e desce até o chão só para subir até não podemos vê-la numa montanha-russa de gozo resplandecente. Aqui, o ar frenético não é desrespeitoso. Amém.

Posteriormente “Hold Your Head High” dá continuidade a essa rigidez bastante expressiva que consegue ser dançante e sábia numa maleabilidade acaçapante, mas sem igual, apesar de utilizar um dos artifícios mais clichês desse ramo: o famigerado episódio da voz distorcida e expulsa para os âmbitos mais graves da canção só para defender um aspecto que gera contraste qualquer e raramente funciona pertinentemente… Aqui não funcionou, mas também não foi suficiente para derrubar a mensagem otimista entregue em um envelope soturno e repleto de metáforas naturalistas, através de batidas entorpecentes, em um ritmo jovial e exacerbadamente provocante. Nessa quarta faixa do álbum, o trash se prova menos intrometido do que pensamos a princípio.

It’s so good when it’s sunny
Yeah, it’s easy and bright
And you’re good with your money
It feels so light, feels so light
When it’s constantly heavy
And the shadows come ‘round
We will never be ready
‘Til all fall down, all fall down

Holding on tightly and closing the door
Just keeps us bright and then we deserve more
Open our eyes to what lays in store
Cause we can’t afford ‘til we save anymore

Bem similar à “Jealous” em sua inconsistência central, só que mais melancólica, “In my Head” é onde a faca corta mais fundo, com as novas influências house e as batidas mais dominadoras que suplantam os versos que, por sua vez, já são bem escassos, verdadeiras pitadas que sempre apontam para os toques mais extrovertidos como pontos a serem adorados na faixa.

“Heartbreak Horizon” vem logo depois, com o mesmo intuito, só que com uma produção bem mais sensata, que preza pela edição que valoriza a voz ao invés de soterrá-la. O refrão é barulhento, multidimensional nos efeitos e ainda gerencia o protagonismo incomparável das palavras. Essa penúltima faixa do álbum é mais decidida, não ensaia seus saltos e contornos audaciosos, vai lá e faz, reintegra o carisma volátil de “I’m in Control” com todos os passos cruciais.

Numa leitura mais lenta dessa nova identidade da dupla, “Wanderlust” apresenta uma conservação do que sempre jogou os artistas no alto: as sobreposições inquietantes e suaves das batidas, sintetizadas com uma ingenuidade ardilosa. Ela consegue ser auspiciosa e misteriosa, honesta e fantasiosa, tudo sob uma organização muito bem pensada e distribuída, que nos faz tirar o gosto amargo do início dessa crítica/viagem.

Concluindo, é importante considerar que, por ser mais pop, agora, eles não deixam de ser inteligentes em suas escolhas e que há um certo valor superior mesmo nessa onda mais atrativa para as massas. Só é meio triste ver um conteúdo tão original quanto o que eles tinham antes ser sucedido por algo, digamos, dentro do que já é conhecido e supervalorizado. É lamentável porque a dupla tem muito mais a oferecer do que as explosões vazias que mancharam os exemplares mais dignos desse trabalho mais recente; a dupla é mais do que o som que vicia, ela é a palavra, e o casamento surreal dela com o som que não só cativa, mas inspira. Eles podem fazer mais, é uma pena que nem todo mundo se disponha a ver além do compreensível imediatamente, é uma pena que eles tenham, em parte, se rendido aos desejos mesmos, medíocres.

Ainda bem que conseguiram conservar traços que os tornam brilhantes, distantes, sempre um passo à frente do que podemos imaginar que eles possam fazer. Que venham mais expressões que não precisem se rebaixar para o sucesso alcançar.

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