No começo, a morte é simples, porque é inesperada, um estalo no meio da existência, uma febre sem calor, um frio sem tremedeira; bela porque nunca será verdadeiramente compreendida, e por isso, jamais aceita ou transcendida antes que seja tarde demais. Mais tarde, depois da segunda vez, ela se torna maltrapilho, estranhamente familiar, como uma dor, tão insignificante e pessoal, tão fora do lugar, mas também, sem uma origem óbvia, sem um traço bem definido, talvez, um sonho dentro de um sonho, um rabisco do infinito, tão perfeita que chega a doer ainda mais, até começar novamente, simples. Na última vez, percebe-se que é apenas mais uma vez, não há fim, mas, mais sobreposição, mais um segredo que jamais exibiremos sobre nossas telas, neurais ou artificiais, mais um acorde de graciosidade divina que, de novo, mas da primeira vez, de novo, deixamos escapar. Simples, assim, morremos lá e morremos aqui, o dia todo, a noite toda, no único tempo que traduzimos, porque somos escravos da impaciência, porque traímos a nós mesmos com a nossa ignorância, porque estamos presos ao vício dos padrões que nos aprisionam em zonas de satisfações medíocres. No começo, a morte não é nossa, agora, em outro fim, outro começo, é só nossa, e nada mais, até ser mais, e depois nada além do que já é.

Inspirado na série “The OA”, disponível na Netflix.

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