É impressionante como as inúmeras formas de amor são magicamente ofuscadas pelo extremismo inconsequente do desamor que emerge mais forte e onipresente dia após dia. Dentro de casa, entre marido e mulher, pai e filho, o ódio e a desconfiança crescem como pragas em uma plantação malcuidada. Só que cuidamos da gente, na medida do possível. Nos preservamos o quanto podemos, o quanto é suportável ir além do veneno injetado constantemente em nossas vidas.

Estamos cada vez mais acostumados com o caos, com a espera do pior que as pessoas podem ser, com a normalização dos assassinatos por razões fáceis demais de serem infundadas, mas que só brilham, mais e mais, no olhar sanguinário de uma sociedade dividida em setores que, surpreendentemente, ainda existem, como o racismo, e em áreas mais recentes, como a transfobia. Não importa a idade do sofrimento, toda jornada cortada prematuramente em prol da manutenção de ideais desumanos é um passo a mais dado em direção à nossa perdição.

Os heróis de hoje não morrem em guerras ou se declaram em praça pública, eles padecem no ápice de seu amor próprio, ao se aceitarem, ao não se condenarem e aprisionarem, se esconderem nas sombras que da vergonha que realmente não lhes pertence, ao não assumirem as toneladas de preconceito. Eles são ícones inspiradores, mas também lembretes da situação atual. São pontos nos gráficos mórbidos e cada vez mais imponentes, números que entram para a história, destinos decididos pelo desfalque da compaixão que nunca foi nosso atributo mais notável, a não ser na ficção.

A falta de amor é sorrateira, tem medo de ser vista em sua totalidade, sob o holofote imparcial da verdade. Tudo isso porque, além de heróis, os que abrem os braços e hasteiam a bandeira da sua inocência também são militantes, são forças contra a correnteza do conformismo, são sementes de raciocínios mais decentes, raros, mas válidos, sempre. Contudo, quem quer fazer o mal, sempre encontra brecha, sempre monta armadilha, seja na Internet ou nas esquinas. E aí vêm as induções de suicídios, os socos gratuitos em plena luz do dia, os xingamentos que caem como granadas, danificando até a mais esplendorosa e persistente das autoestimas bombardeadas covardemente.

Para amar, agora, mais do que nunca, é preciso ter fé no impossível, crer que as vitórias estão nas facadas evitadas hoje e não no convívio pacífico de sei lá quando. O segredo é não se render, mas também não se iludir; não se podar, mas também não se superestimar. Temos que fazer o que é difícil, considerar que toda verdade que não seja a dos nossos corações está sujeita a ser uma mentira letal. O mundo é escravo da facilidade, é creme perfeito da preguiça, da vontade de ter tudo ainda sob o calor do nascimento do desejo. É mais prático odiar e apunhalar do que ouvir e contextualizar. O ego ergue muros alucinógenos, perigosos, ácidos para os que têm paciência para analisar os fatos, para não julgar apenas para se sentir maior do que quem está na cadeira do réu. Para se amar, agora, mais do que nunca, é preciso abrir a mente e o corpo, se alarmar com as pioras e insistir no diálogo, na complacência, na tolerância. Chega de golpes, de roubos, de usurpações, de ditaduras, de opressões…

Anúncios