O homem e seu bendito trauma
Queria dizer várias coisas, mas diz poucas
Cala-se entre as brechas de qualquer oportunidade
Mais uma fonte de falas roucas

O homem e sua honra, seus princípios
O peso que ele admite carregar sem dificuldade
A única coisa que ainda o mantém são
Mas só o prende, não cura de verdade

O homem e seu tormento, a todo momento
Nas pétalas de mensagens e imagens
Nas propostas e risadas e amizades
Nas felicidades que passam como paisagens

O homem e a sua condensação melancólica
Os passos, os mais profundos, abrem buracos invisíveis
De todos os ápices de tristeza que é possível ter ao seu lado
As cabeças baixas demarcam os mais imbatíveis

Por fora, a imponência
A indestrutibilidade
Por dentro, a decadência
A nutrição doentia da saudade

– – –
A política como um poder usurpado, reverenciado
A maldade travestida em preocupação
O ativismo do lobo sob o pingo da saliva
O contentamento do povo ao nadar na mentira

A intransigência como único caminho
O respeito que se arranca com o que der
Dentes, unhas, socos e mordidas de uma fé
A ambição como única língua inteligível, desde o ninho

O negro como foco na comunidade
Sem o apelo fraco e batido das vitimas
Aqui o sangue nunca é dos inocentes
As senhoras dispõem das melhores torturas

– – –

Mulheres habilidosas, fortes, em suas cascas
Borboletas tóxicas e inescapáveis a cada nuance
Glórias corriqueiras que se revelam ícones de uma força
Límpidas doses de autossuficiência a cada instante

Tudo é muito imponente
Menos o Luke
Tudo é muito reluzente
Menos o Luke
Tudo é muito convergente
Menos o Luke
Tudo é muito resplandecente
Menos o Luke

Fotografia de tons escuros, pouca luz
Cavernas de todos os tipos, intimistas
Construções de cores que engolem as informações
Como no teatro, a pureza fala por si só
É uma conversa entre nós e a arte
Um tapa e uma lambida bem lá
Luzes só nos entorpeceriam ainda mais
Fogos de artifício são para ilusões perfeitas
Aqui, de mais incontestáveis, temos desilusões

Roteiro triangular e ascendente
Mas não muito eficaz comercialmente
Falha em apresentar os personagens dignamente
Só pinga traços exorbitantes de toda essa gente
Faz uma sopa como se já fôssemos da corrente

Mas a prisão acabara de começar!

Mal nos adaptamos ao modo especial de sangrar
Mal vimos os chutes e balas e dores caladas
Mal nos vimos diante da nossa alma, tão dela

Narrativa ainda em formação, mas envolvente
Tem algo de interessante para mostrar
Relações mais complexas para destrinchar
Elementos mais difíceis de lidar
Narrativa ainda raquítica, mas contundente

Trilha sonora que apaixona e impõe consideração
Se faz nítida e chamativa logo nos primeiros momentos
Ora romântica, abstrata e até um pouco alheia à trama
Ora vibrante e instável, decalque voraz da sintonia sacana

Estética do gueto
Só que elitizada
Trazida para a modernidade
Em interesses esfumaçados
Que transbordam os limites
Da vizinhança, dos conhecidos
Incorporam muito mais do que o passado
E o presente e o futuro dos líderes
Mas também o que eles veem
A partir de si mesmos
Como progresso
Como obstáculo
Como inevitabilidade

Mais convincente do que em outros momentos
Ainda assim funciona melhor nos epílogos de descontração
Não muito orgânico nas cenas dramáticas e conturbadas
Protagonista que precisa de mais saídas palpáveis de emoção

Epifanias vazias são limitações monstruosas
Cordas que não sustentam, realmente, nada
Acontecimentos descartáveis, relevância barata
Epifanias vazias são muito melhores mortas

Uma produção que pode ser mais
Quase se igualar às suas irmãs mais velhas
Não deixar um caminho tão amargo para a caçula
Mas precisa determinar seu rumo com mais nitidez
Abandonar aberturas desconcertantes, embebidas em timidez
Pensar melhor no que já sabemos e o que é primordial
Verificar os mecanismos de ação e as roupagens do mal
Organizar, mesmo que de maneira inovadora, introduções
Para impactar e crescer, todos os elos necessitam contextualizações
…Conjuntas e individuais, volumosas e casuais


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